Pronto, falei! Tô Leve!

Dia desses tivemos uma discussão na aula sobre estereótipos. Assunto legal, não? Meu professor começou perguntando o que as pessoas pensavam quando ele citava o nome de um determinado país. Confesso que eu nem estava prestando muita atenção, fazendo outra coisa, quando de repente ouço “BRASIL” e automaticamente duas pessoas respondem rápido: “DROGAS”!  Ah, pra quê? Senti a ira começando a inflar aqui dentro… Imediatamente me virei enfurecida para as tais pessoas e bati na mesa, esbravejando: Que é isso, gente? O Brasil NÃO é conhecido no mundo por causa de drogas, não! Esse estereótipo é de outro país na América do Sul, nossos vizinhos! Vocês estão equivocados!!! O Brasil é conhecido por samba, futebol, Carnaval, alegria, comemorações o ano inteiro!!! E meu professor, todo querido, veio em meu auxílio, confirmando as informações que eu compartilhava, tentando controlar a minha súbita “fúria”.

Abre parêntese. Estou mesmo farta de tanto responder perguntas hediondas sobre o Brasil e a nossa realidade. Por exemplo, já me perguntaram mais de uma vez se todo mundo anda de biquini pela rua… Sim, meu querido! O Brasil inteiro é uma enorme praia e a gente fica o ano todo praticamente pelado, andando de Havaianas e bebendo água de coco!!! Outros querem saber se eu já desfilei com aquelas fantasias maravilhosas com 165.783.940.526.374 plumas, sambando no Carnaval carioca. E quando ouvem a minha resposta, dizendo: Não, eu ODEIO Carnaval, me olham com aquela cara de espanto! Já tive o desprazer de responder a um ser que me perguntou se eu morava na floresta! Sim, gênio, bem no meio da Floresta Amazônica! Vou trabalhar de cipó, meu amor… Não tá percebendo esse arco e flecha aqui na minha mão? Grrrrrrr! A situação mais irritante foi discutir com um colega de classe, que afirmava de pé junto que a Amazônia não pertence ao Brasil! “Ela fica perto, mas não dentro”, disse ele. Eu posso com isso??? Gente que pensa ser o Espanhol a nossa língua-mãe, é quase 80%. Você diz que é brasileira e o dito cujo logo pergunta: “Tu hablas español”??? Não, Einstein, Io parlo Português!!! Fecha parêntese.

Depois da discussão do estereótipo, chego em casa e caio na Internet, procurando coisas sobre o assunto, e encontro uma pesquisa no site da CNN. A nacionalidade considerada mais “cool” do mundo é a BRASILEIRA! Por quê? Oras, porque, traduzindo com fidelidade o que diz o site, “sem brasileiros, não teríamos o samba e o Carnaval do Rio, não teríamos a beleza do futebol de Pelé e Ronaldo, não teríamos o biquini minúsculo e corpos tonificados da praia de Copacabana”. Cheguei no dia seguinte radiante de alegria, e, mal a aula começou, abri meu computador toda prosa e PALESTREI sobre a tal pesquisa! Hahahaha! Silêncio geral… Sabe aquela sensação MA-RA-VI-LHO-SA de riso interior???

Mas como quem ri por último (interna ou externamente) sempre ri melhor, poucos dias depois estoura um escândalo em Melbourne: feita a MAIOR apreensão de drogas já vista no Estado de Victoria, a quinta maior na Austrália, vinda de onde? De onde? Por favor, caro leitor, me responda: de onde???  Da minha pátria-amada-idolatrada-salve-salve! Nem preciso dizer que foi vergonhoso encarar a realidade e ter que aceitar  as drogas como um estereótipo triste da imagem atual do nosso país perante o mundo. Eu só tenho a lamentar.

29 comentários em “Pronto, falei! Tô Leve!”

  1. Puts Carol, que situação, um texto tão lindo e inflamado de patriotismo, tenho certeza que os colombianos atravessaram a fronteira só para mandar a droga daqui, é obvio, São Paulo esta infestada de colombianos e bolivianos..
    As Drogas estão demais por aqui mesmo, lavagem cerebral absurda nos filhos, mas sinceramente não vejo o Brasil alcançar esse estereótipo absurdo.

    1. Ai, Paulinha, quer saber?
      Nem acredito nisso, não… Deve ser uma quadrilha daquelas, suuuper sofisticada, com metralhadoras e armas que só os “bambambans” poderiam usar!
      E o pior, deve ser tudo brasileiro mesmo, se lerdear um bando de milionário, vivendo no luxo, às custas de gente viciada!
      Sou muito patriota, sim, é fato! Amo o Brasil de coração, sempre amei! Não fiquei assim porque me mudei, não! Sempre acreditei numa mudança, que gente de bem um dia iria virar a mesa nesse país e fazer a coisa acontecer…
      Mas pelo jeito, talvez leve uma vida toda pra isso acontecer; ou NUNCA aconteça!
      Só sei que fico triste, muito triste!

      Beijos.

  2. This is hypocrisy and ignorance at its best. You complain that people ask you about Carnival and bikinis, and then celebrate when a CNN report advises that the world associates Brazil with Carnival and bikinis. You despise your country being stereotyped as a hothouse for drug production yet remain comfortable painting Colombia with the very same brush. Abre parentese: I’m sure your familiar with Colombia’s aggressive tackling of their drug trade – an action undertaken far before Brazil even began to cruve the increase in illegal production. Fecha parentese.

    Having spent much time in Brazil, I can assure you that the majority of people I met do not know the language spoken in Iran, the religious divisions of India, the predominant landscape of Russia or the political lean of China. Yet these are all large and influential nations like Brazil. I never complained to Brazilians about this ignorance. It’s not the Brazilian public’s responsibility to spend their time researching the intiricacies of every major nation in the world – they go by the limited news coverage they see, or brief conversations they’ve had. Similarly, most Australians have seen Cidade de Deus and have viewed countless news items telling of horrific crimes committed because of the drug trade. This stereotype might not be 100% accurate, but it’s based upon the limited information they’ve been exposed to. Most Brazilians thought I must be a surfer who spends most of his time on the beach. I’m not … but I understand why they think it. It’s the universal image of my country. Just because you don’t like a stereotype about your nation does not mean it’s unfounded – this is what I worry you fail to understand.

  3. Olá RATIONAL AUSSIE!

    Se você leu o que escrevi, é porque entende Português. Esse é um blog em Português. Então vou responder em minha língua. Agradeço por sua visita, e acho interessantíssimo quando as pessoas discordam veementemente sobre o que escrevo e comentam: isso é democracia!
    Porém, esse blog é o meu espaço e nele expresso o que eu sinto.
    Primeiro de tudo, não me sinto “confortável” com o tal estereótipo da Colômbia, e, com todo o respeito, não fui eu quem o inventou. Nenhum estereótipo deixa NINGUÉM confortável! Segundo, odeio QUALQUER tipo de estereótipo, seja ele sobre o meu país ou o seu… Por isso escrevi no início do post: “Assunto legal, não”? Foi uma frase irônica, caso você não tenha entendido… A Colômbia é muito maior do que as drogas, a Itália vai muito além da máfia, a Austrália tem muito mais do que surfistas, os Estados Unidos têm muito mais a demonstrar do que prepotência, e assim vai! Nenhum estereótipo é 100% exato, como você disse! Aliás, TODO ESTEREÓTIPO É IGNORÂNCIA! E o estereótipo do Brasil, do biquini, do samba, do Carnaval, do futebol, da pobreza, das favelas, da prostituição, tudo representa APENAS UMA PARTE do que realmente somos!
    Assim como o seu país não tem apenas surfistas, o meu é muito mais do que isso! Somos um povo que trabalha duro, muito mais do que a maioria dos povos de países de Primeiro Mundo; estudamos absurdamente para melhorar de vida; batalhamos diariamente para dar uma vida melhor aos nossos filhos.
    E quero deixar claro que eu NÃO comemorei o Brasil ter ganho pelos requisitos biquini, samba ou o que seja. Apenas usei a matéria para mostrar àquelas pessoas que o estereótipo brasileiro diante do Mundo era outro. Isso não quer dizer QUE EU GOSTE DELE OU CONCORDE COM ELE!!! Filmes como o citado “Cidade de Deus” ou o famoso “Tropa de Elite” demonstram uma parcela da situação brasileira, mas não retrata O QUE É O BRASIL INTEIRO!
    Com certeza, não espero que as pessoas saibam a língua falada no meu país, porque de fato nós brasileiros não sabemos de todas as línguas, nem as religiões do mundo, como você citou, mas um pouco de bom senso não faz mal à ninguém! Eu não saio por aí perguntando aos chineses se eles falam japonês, ou aos turcos se eles falam alemão, nem aos franceses se eles falam italiano. Eu educamente pergunto que língua eles falam, quando quero iniciar uma conversa sobre o assunto.
    O objetivo do meu desabafo foi de apenas demonstrar o quanto fiquei triste e decepcionada quando eu soube do tal carregamento de drogas vindo do Brasil e como realmente a imagem do meu país está mudando diante do mundo. Perdoe-me se te ofendi, de alguma forma. E eu tenho sim muito conhecimento sobre a luta que a Colômbia trava contra as drogas, sem dúvida nenhuma. Infelizmente, assim como o Peru, a Bolivia e outros países da América Latina, que carregam esse maldito estereótipo de fornecedores de drogas para o mundo. Na realidade, esse mercado “negro” cresce muito mais porque os chamados países de Primeiro Mundo, as tais potências econômicas, são GRANDES CONSUMIDORES!

    Finalizando, caso mais alguém não tenha entendido o objetivo do meu post, foi apenas para revelar o quanto me entristeceu o ocorrido, e como eu me senti envergonhada por ver meu país mais uma vez nas notícias policiais do exterior.

    Carolina Martins.

  4. Hey Carolina,

    Hope you don’t mind if I reply in English. I find it difficult to express my views effectively in Portuguese. Appreciate the lengthy response – you clarified a lot that I probably didn’t understand earlier. We’d all prefer for stereotypes of our countries to be entirely positive so I understand your sadness or frustration or embarrassment .. fortunately educated people tend not to take stereotypes seriously without adequate research first.

    I agree that stereotypes don’t reflect the necessary nature of a country, but I disagree that all show ignorance. They exist for a reason, and the legitimacy of the reason runs the spectrum from well founded to grossly inaccurate. I think the ignorance lies within those who view the stereotype as anything more than what it is: a particular trait that’s been observed more than once in the culture, but certainly not a cross-section of society.

    I remember when I was once in Brazil and a friend made a joke about the black skin of another friend of his. Being from an overly-politically correct country (another Aussie stereotype, although I do subscribe to this one), I was shocked. But then I realised that the comment had no venom in it – it was purely an observational joke between friends with absolutely no racist tendencies. The ignorance wasn’t in the form of racism, but in my reaction – I assumed any mention of race must involve mal-intent and applied this assumption to the situation. I view stereotypes somewhat similarly – they should be assessed upon their intent. They exist as a result of informational input, yet only when the output is intended to hurt should they be critiqued.

    The other important aspect of stereotypes is that they care only in what is unique to its subject. Those who know Brazilians would agree with what you said about hard work and being studious – but it doesn’t stick as a memorable stereotype. It’s not that people want the stereotype to be negative, purely that the negative ones tend to stand out more. Ones involving bikinis tend to stand out as well … for obvious reasons.

    Fortunately these snapshots don’t make any reasonable person think that life in Brazil revolves around drugs and bikinis. Most people don’t judge or act upon stereotypes, and those that do aren’t ones you’d want to associate with anyway! It is sad that the imported drugs came from Brazil, but Aussies will base our views around the interaction and experiences we have (which are overwhemingly positive) so I don’t think there’s any need to be too concerned. And if all else fails … just chuck on a Carnival costume and do a samba rs!

    1. Obrigada por seus comentários e reflexões, Rational Aussie! Isso sempre acrescenta aos nossos leitores…
      Mas digo de novo, eu não gosto de samba, nem de Carnaval!
      E não vou usar o recurso, nem quando estiver triste sobre o que anda acontecendo com o meu país ao redor do mundo…

      G’day, mate!

  5. Essas reclamações vindas de alguém proveniente de um país que rotula os portugueses de donos de padaria e as portuguesas de bigodudas, são bem “engraçadas”. E aí posso dizer com toda a segurança que a esmagadora maioria dos brasileiros pensa que isso é verdade.

    1. Olá Frade!

      Engraçado é você dizer sobre os bigodes das portuguesas! Morei no Brasil por 34 anos e NUNCA ouvi falar disso… Interessante, não? Sobre as padarias, conheço algumas excelentes no Brasil, com freguesia gigantesca, e elas pertencem mesmo aos portugueses! Muitos deles fizeram fortuna no Brasil, administrando suas padarias… Pastelzinho de Belém, hummmmm, já comeu? Adoro! E não vejo nenhum problema nisso! Tenho amigos portugueses vivendo no Brasil, donos de padarias maravilhosas e não consigo ver problema algum nisso!

      Obrigada pela visita ao meu Blog! Seja muito bem vindo!

      1. Sim, portugueses que fazem disso negócio no Brasil. Mas há brasileiros que pensam que Portugal é uma grande padaria.😀
        E não me diga que nunca leu uma das milhentas piadas sobre portugueses que existem no Brasil. Eu que vivo do outro lado do Oceano tenho conhecimento delas. Quase todos os brasileiros que conheço perguntam se é verdade que a portuguesa tem bigode. Inacreditável. E conheço muitos especialmente através da Internet, por motivos que não vêm ao caso. Pelos vistos vc é uma excepção. Uma feliz excepção.

      2. É exatamente disso que se trata o post, Frade!
        ESTEREÓTIPOS!
        Nem todo brasileiro é OBRIGADO a saber de TODAS as piadinhas sobre os portugueses! Sei de muitas, sim, mas nenhuma sobre bigodes em mulheres! E sobre LER piadas, como você disse, esse não é realmente o tipo de leitura com que gasto o meu precioso tempo!
        E, com todo o respeito aos brasileiros que te perguntam se as portuguesas têm mesmo bigodes, isso só demonstra a falta de informação das pessoas; e hoje em dia, com a facilidade e rapidez com que podemos fazer qualquer tipo de pesquisa, é indesculpável. Porém, BOM SENSO ainda é privilégio de poucos…
        Continuo não vendo problema algum na ligação entre portugueses e padarias, mas se isso te ofende, sinto muito, embora em NENHUM MOMENTO eu tenha feito qualquer comentário sobre PORTUGAL, padarias ou mulheres com bigodes… Quem lançou o assunto foi você mesmo… Aliás, Frade, eu ficaria bem feliz se tivesse que ir à sites na internet discutir se pessoas fazem piadinhas sobre o meu país, envolvendo padarias e bigodes! Infelizmente, sobre o meu país a coisa é mais séria…
        O estereótipo sobre as drogas em países pobres da América Latina, não vem de piadinhas ou idiotices semeadas entre pessoas pobres de espírito; são dados reais e acontecimentos tristes, de vida DE VERDADE, gente DE VERDADE, problemas DE VERDADE!

        Saudações aussies…

      3. Não me ofende, se bem que quando o estereótipo é mencionado é sempre com o intuito de querer ofender. Tal como as piadas costumam ser bastante ofensivas, desde a portuguesa bigoduda, ao Joaquim e o Manuel (nomes raros em Portugal e típicos de uma geração mais velha!) que são homens sempre profundamente idiotas. A única coisa que quis mostrar foi que existe gente ignorante em todos os lugares, inclusive no Brasil. Vc vivendo fora do Brasil conhece outras realidades mas muitos brasileiros não sabem sequer apontar no mapa o país que colonizou o Brasil, quanto mais saber alguma coisa acerca dele. O que conhecem de Portugal é o que vêem por lá: portugueses com negócios de padarias. Então, os portugueses só podem ser todos padeiros!

        De qualquer forma tb há coisas nesses estereótipos ligados ao Brasil que não acho assim tão ofensivas. As perguntas que fazem a vc são perguntas tolas típicas da ignorância mas que não creio que pretendam ofendê-la. Pelo menos tendo em conta os exemplos que vc deu. Provavelmente vc tb terá ideias estereotipadas acerca de outros países.

      4. Fique tranquilo, Frade! Eu sou inteligente o bastante e tenho bom senso o suficiente para não sair por aí fazendo perguntas nem afirmações infundadas sobre bigodes, padarias, ou o que quer que seja. Quando penso sobre algum país ou cultura, e tenho alguma dúvida, uso minha capacidade de discernir e busco informações, para não dar vexame ao conversar com as pessoas.

        De qualquer forma, agradeço sua participação aqui no Blog!

  6. Ola Carol!

    A verdade nua e crua em relação as drogas não é de hoje mas no passado, O tráfico internacional de drogas cresceu espetacularmente durante os anos 80, até atingir, atualmente, uma cifra anual superior a US$ 500 bilhões. Esta cifra supera os proventos do comércio internacional de petróleo; o narcotráfico é o segundo item do comércio mundial, só sendo superado pelo tráfico de armamento. Estes são índices objetivos da decomposição das relações de produção imperantes: o mercado mundial, expressão mais elevada da produção capitalista, está dominado, primeiro, por um comércio da destruição e, segundo, por um tráfico declaradamente ilegal.

    Na base do fenômeno encontra-se a explosão do consumo e a popularização da droga, especialmente nos países capitalistas desenvolvidos, que é outro sintoma da decomposição. O tráfico de drogas foi sempre um negócio capitalista, por ser organizado como uma empresa, estimulada pelo lucro. Na medida em que a sua mercadoria é a autodestruição da pessoa, o consumo expressa a desmoralização de setores inteiros da sociedade. Os setores mais afetados são precisamente os mais golpeados pela falta de perspectivas: a juventude condenada ao desemprego crônico e à falta de esperanças e, no outro exemplo, os filhos das classes abastadas que sentem a decomposição social e moral. O primeiro episódio de consumo massivo de drogas aconteceu durante a mais impopular das guerras protagonizada pela “sociedade opulenta”: a Guerra do Vietnã. Durante o período dos conflitos, 40% dos soldados norte-americanos consumiam heroína e 80% maconha. Apenas 8% deles continuaram a consumir drogas uma vez de volta, “em casa”.

    Para se ter uma idéia da pressão que o narcotráfico exerce sobre as economias dos países atrasados, um exemplo basta. Em 28 de setembro de 1989, foi feita em Los Angeles a maior apreensão de cocaína já realizada: 21,4 toneladas, cujo preço de venda ao público atingiria US$ 6 bilhões, uma cifra superior ao PNB de 100 (cem) Estados soberanos. A grande transformação das economias monoprodutoras em narcoprodutoras (e o grande salto do consumo nos EUA e na Europa) se produziu durante os anos 80, quando os preços das matérias-primas despencaram no mercado mundial: açúcar (-64%), café (-30%), algodão (-32%), trigo (-17%). A crise econômica mundial exerceu uma pressão formidável em favor da narco-reciclagem das economias agrárias, o que redundou num aumento excepcional da oferta de narcóticos nos países industriais e no mundo todo. Apenas nos últimos anos, o tráfico mundial cresceu 400%. As apreensões de carregamentos se multiplicaram por noventa nos últimos quinze anos, ainda assim afetando apenas entre 10 e 20% do comércio mundial.

    Histórico

    O tráfico internacional de drogas, em alta escala, começou a desenvolver-se a partir de meados da década de 1970, tendo tido o seu boom na década de 1980. Esse desenvolvimento está estreitamente ligado à crise econômica mundial. O narcotráfico determina as economias dos países produtores de coca, cujos principais produtos de exportação têm sofrido sucessivas quedas em seus preços (ainda que a maior parte dos lucros não fique nesses países) e, ao mesmo tempo, favorece principalmente o sistema financeiro mundial. O dinheiro oriundo da droga corresponde à lógica do sistema financeiro, que é eminentemente especulativo. Este necessita, cada vez mais, de capital “livre” para girar, e o tráfico de drogas promove o “aparecimento mágico” desse capital que se acumula muito rápido e se move velozmente.

    Atualmente, o narcotráfico é um dos negócios mais lucrativos do mundo. Sua rentabilidade se aproxima dos 3.000%. Os custos de produção somam 0,5% e os de transporte gastos com a distribuição (incluindo subornos) 3% em relação ao preço final de venda. De acordo com dados recentes, o quilo de cocaína custa US$ 2.000 na Colômbia, US$ 25.000 nos EUA e US$ 40.000 na Europa.

    A América Latina participa do narcotráfico na qualidade de maior produtora mundial de cocaína, e um de seus países, a Colômbia, detém o controle da maior parte do tráfico internacional (a pequena parte restante é dividida entre a máfia siciliana e a Yakuza japonesa). A cocaína gera “dependência” não apenas em indivíduos, mas também em grupos econômicos e até mesmo nas economias de alguns países, como por exemplo nos bancos da Flórida, em algumas ilhas do Caribe ou nos principais países produtores — Peru, Bolívia e Colômbia, para citar apenas os casos de maior destaque. Com relação aos três últimos, os dados são impressionantes. Na Bolívia, os lucros com o narcotráfico chegam a US$ 1,5 bilhão contra US$ 2,5 bilhões das exportações legais. Na Colômbia, o narcotráfico gera de US$ 2 a 4 bilhões, enquanto as exportações oficiais geram US$ 5,25 bilhões. Nestes países, a corrupção é generalizada. Os narcotraficantes controlam o governo, as forças armadas, o corpo diplomático e até as unidades encarregadas do combate ao tráfico. Não há setor da sociedade que não tenha ligações com os traficantes e até mesmo a Igreja recebe contribuições destes.

    No Peru e na Bolívia, parte da produção de coca é legal e destina-se ao consumo tradicional (mastigação das folhas para combater os efeitos da altitude), à indústria (chás e medicamentos) e à exportação (o Peru exporta 700 toneladas de folhas de coca por ano para a Coca-cola).

    O Peru é o maior produtor mundial de coca. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 100 mil camponeses peruanos cultivam 300 mil hectares de coca. Apenas 5% dessa produção é utilizada para fins legais. Com o resto, o tráfico abastece 60% do mercado mundial. Esses camponeses são massacrados, alternadamente, pela guerrilha, pela máfia e pelas tropas de repressão ao tráfico.

    Dependência econômica

    Na Bolívia, a dependência em relação ao narcotráfico chega ao extremo. Os traficantes detêm o controle das principais empresas, a corrupção atinge níveis inacreditáveis e, de acordo com a CEPAL, a população desempregada passou de 19% da população ativa em 1985 para 35% no ano seguinte. De cada três bolivianos, um lucra com os derivados do narcotráfico. Há estimativas, que coincidem com os dados da CEPAL, segundo as quais 65% da economia do país pertencem ao setor informal.

    A Colômbia especializou-se em transformar a pasta base produzida por Peru e Bolívia em cocaína e exportá-la para o resto do mundo. Dois grandes cartéis (Cali e Medellin) controlam a maior parte do narcotráfico no país. Entretanto, existem centenas de pequenos traficantes, muitos dos quais roubam a droga dos grandes cartéis. O país está, por completo, nas mãos dos narcotraficantes. O Congresso e a polícia nacionais disputam o primeiro lugar em grau de corrupção, a até mesmo as campanhas presidenciais são patrocinadas com dinheiro da droga. Cada novo governo colombiano se esforça para repatriar os lucros obtidos com o tráfico internacional de cocaína. Dos cerca de US$ 16 bilhões anuais obtidos pelos narcotraficantes, apenas entre US$ 2 e 4 bilhões voltam ao país.

    A expansão desta atividade na América Latina significou a degradação de países inteiros ao simples papel de apêndice do narcotráfico. A coca já representa 75% do PIB boliviano, 23% de outras nações. Semelhantes porcentagens tornam ridícula a denominação “economia informal”. Os grupos principais das burguesias nacionais realizaram sua reconversão pela “economia do crime”, dominando os recursos dos Estados e monopolizando um acúmulo de riquezas que permitiu aos mafiosos colombianos situarem-se no ranking dos multimilionários do mundo. A transformação do mineiro boliviano em cultivador de coca e a substituição das melhores áreas agrícolas por cultivos do insumo básico da droga são determinantes do pavoroso estancamento da economia deste país, que alguns “experts” de Harvard elogiam cinicamente por sua “estabilidade monetária”. Que a coca represente a única saída de sobrevivência para os peruanos desempregados das cidades ou migrantes da desertificação rural é outra evidência do mesmo processo de regressão econômica. Em meio aos assassinatos cotidianos, a Colômbia é uma vitrina por onde se vê o esbanjamento de um grupo de cartéis que, seguindo a tradição das oligarquias latino-americanas, gastam em importações suntuosas um volume de dinheiro que permitiria saldar a dívida externa deste país. Como ocorreu no passado com a borracha, o guano e o açúcar, a monoexportação de coca é mais um episódio da devastação agrária, do empobrecimento campesino e do desperdício da região.

    A “narcoeconomia” não é um âmbito delituoso socialmente homogêneo como apresenta a destorcida propaganda da “polícia imperialista”. O grosso dos camponeses e operários “pisadores” que se vêem forçados a cultivar e processar a coca não só mantêm sua condição de superexplorados, como sofrem a renovada pressão do aparato do Estado e dos cartéis, associados em “esquadrões da morte” e em bandos de pistoleiros do latifúndio. Os mesmos beneficiários do tráfico criaram o fantasma do “narcoterrorismo” e da narcoguerrilha” para encobrir sua ação criminal.

    Mercado consumidor

    Já foi largamente demonstrado que a oferta de coca latino-americana é simplesmente a resposta à demanda dos 40 milhões de consumidores das drogas legais. Se se soma a esta cifra os diversos tipos de psicofármacos aceitados, embora sejam igualmente danosos para a saúde, salta à vista que a “narcoeconomia” satisfaça um mercado incomensuravelmente maior que o alcoolismo e o tabagismo tradicional. A América Latina se degrada ao ver-se obrigada a integrar-se como abastecedora da importante população dos países desenvolvidos que recorre aos excitantes e calmantes artificiais para evadir-se da alienação laboral, da falta de horizontes sociais, ou da destrutiva competição hiperindividualista imposta pelo mercado. O consumo de drogas, que o capitalismo universalizou e massificou em cada época em grupos sociais e nacionais diferentes, esteve, na década de 1980, diretamente associado à extensão da marginalidade, da pobreza e da desocupação. O capitalismo só pôde oferecer crack, cocaína e heroína aos jovens que não emprega, aos emigrantes que expulsa, às minorias que discrimina ou aos trabalhadores que destrói.

    Na América Latina só reingressa entre 2 e 4% dos US$ 100 bilhões que produzem anualmente as vendas de cocaína nos Estados Unidos. A parte mais lucrativa do negócio é incorporada pelos bancos lavadores e, em menor medida, pelos próprios cartéis que internacionalizaram a distribuição de seus lucros, seguindo o padrão de fuga de capitais que desenvolveram as burguesias latino-americanas na última década. O preço da coca na plantação boliviana é 250 vezes menor que nos EUA. A mesma mercadoria no porto colombiano é cotada 40 vezes menos que nas cidades norte-americanas. Esta impressionante diferença é uma manifestação típica do intercâmbio desigual que governa os preços de todas as matérias primas latino-americanas.

    Combate americano

    Para o principal país consumidor, os EUA, o narcotráfico é, à primeira vista, um grande problema. Bilhões de dólares têm sido gastos na guerra aos traficantes, e igual quantia tem sido perdida em conseqüência do vício dos cidadãos norte-americanos (gastos com reabilitação, perdas na produção, aumento da criminalidade etc.).

    Por outro lado, o narcotráfico é de grande utilidade para os EUA, chegando a gerar lucros, pois com a venda dos componentes químicos das drogas, a economia americana recebe em torno de US$ 240 bilhões, uma parte dos quais é investida em diversos setores da economia ou vai para os bancos. Os bancos da Flórida são especializados em “lavar” o dinheiro dos narcotraficantes e neles circula mais dinheiro em efetivo do que nos bancos de todos os demais estados juntos.

    Os EUA recorrem ao protecionismo para resguardar seus “narcoprodutores” da competição externa. Utiliza desfolhantes contra o cultivo de marijuana no México, para favorecer seu desenvolvimento na Califórnia; destrói laboratórios de drogas proibidas no Peru e na Bolívia para reforçar o envenenamento legalizado que realizam os monopólios farmacêuticos com estupefacientes substitutivos; luta contra as drogas naturais e processadas em defesa das sintéticas patenteadas e comercializadas pelos grandes laboratórios; guerreia contra os cultivadores latino-americanos auxiliando seus velhos sócios do sudeste asiático. A repressão extra-econômica ao tráfico é a forma de regular os preços de um mercado potencialmente estável pelo caráter viciante do produto. Com a “guerra ao narcotráfico”, os EUA tratam de salvaguardar suas companhias químicas provedoras de insumos para o processamento, propiciando, em geral, uma “substituição de importações” no grande negócio de destruir a saúde e a integridade de uma parte da população.

    A “narcoeconomia” está afetada pelos mesmos ciclos de superprodução que qualquer outro setor e, por isso, o imperialismo apela aos instrumentos clássicos de guerra comercial, buscando baratear a produção local e encarecer a competição latino-americana. É evidente que a militarização recente com o pretexto de “lutar contra o flagelo da droga” é um aspecto da recolonização comercial e da chantagem financeira sobre a América Latina. A nova leva de tropas da marinha enviada à região está muito mais relacionada com a Iniciativa das Américas e o plano Brady, do que com o narcotráfico. É inaceitável supor que a invasão do Panamá, o bloqueio naval à Colômbia, a instalação de bases na Bolívia e no Peru, a militarização da fronteira mexicana, a introdução de uma jurisprudência avassaladora da legislação latino-americana, estão motivadas pela erradicação do narcotráfico. Busca-se a substituição da “ameaça do comunismo” por um perigo equivalente.

    O domínio do comércio de narcóticos foi, desde o século passado, um campo de rivalidades interimperialistas e, por isso, a atitude do governo estadunidense frente ao problema nunca se baseou em considerações sanitárias, mas nas alternantes necessidades políticas. Isto explica o oscilante predomínio de períodos de tolerância e repressão, permissividade e perseguição, e o tratamento do consumidor como delinqüente ou enfermo.

    Na prática, os EUA aumentam sua intervenção na América Latina em defesa de um clã contra outro, ou para arbitrar as sangrentas lutas entre eles. A “narcoeconomia”, longe de ser um submundo alheio à norma capitalista, está rigorosamente organizado de acordo com os parâmetros da “economia de mercado”. Os objetivos das máfias — captura de mercados, monopólio de preços e domínio sobre os segmentos mais lucrativos — são metas tipicamente capitalistas. As economias “subterrâneas” e legalizadas mantêm infinitos vínculos entre si, e a existência de crise num setor se transmite ao outro.

    Envolvimento dos bancos

    O papel central da “narcoeconomia” no capitalismo contemporâneo se detecta no peso alcançado pela “lavagem do dinheiro” no sistema financeiro. Todos os bancos de envergadura, desde o Boston até o Credit Suisse, participam desta operação. Pelas somas envolvidas, a “lavagem” seria impossível sem a cumplicidade dos banqueiros que intermediam a legalização do dinheiro sujo e a sua conversão em ativos, empresas ou imóveis. Nos últimos anos, os bancos criaram paraísos fiscais nos quais se lava, diariamente e à vista de todos, entre US$ 160 e 400 milhões. Esta associação entre mafiosos e banqueiros se apoia, em última instância, no sigilo bancário — um princípio intocável para o capitalismo — por ser um pilar da propriedade privada, na confidencialidade dos negócios e na livre disponibilidade do capital.

    As denúncias de lavagem, a campanha antidroga e as controvérsias sobre a legalização de certos narcóticos, expressam a enorme rivalidade interbancária que existe no negócio da lavagem, especialmente entre o tradicional centro suíço e seus competidores do Caribe, Panamá e Uruguai.

    Os lucros produzidos pelo narcotráfico de maneira nenhuma enriquecem os países produtores. Nos EUA, calcula-se em 20 milhões o número de consumidores regulares de drogas, que em 1988 gastaram US$ 150 bilhões. Desse total, entre US$ 5 e US$ 10 bilhões foram os lucros dos cartéis produtores na Colômbia. Mas apenas US$ 1 bilhão foi investido na economia oficial do país. E o restante? Calcula-se que 90% dos lucros do narcotráfico sejam recebidos pelos grandes bancos, por depósitos dos produtores e dos intermediários, e por comissões pela “lavagem” do dinheiro. As medidas tomadas pelas autoridades dos EUA contra as operações bancárias de cumplicidade com os traficantes são risíveis: entre os bancos que sofreram sanções por não terem declarado transações figura o First National Bank of Boston, que expediu para o exterior US$ 1,2 bilhão em notas pequenas. A comissão de 3% paga pelos traficantes (US$ 36 milhões) torna irrisória a multa de US$ 500 mil imposta ao banco. O que se multa, no caso, é a ilegalidade da operação, não a origem criminosa do dinheiro protegido pelo sacrossanto “sigilo bancário”.

    Eis porque a política dos EUA, que ataca apenas os traficantes diretos, não consegue impedir o crescimento do narcotráfico e dos seus lucros. Ao reduzir parcialmente a oferta, deixando intocado o aparato financeiro, só se consegue “um aumento dos lucros, recapitalizando constantemente as redes de produção e distribuição, a ampliação geográfica da produção e a fixação de um piso mínimo para a cocaína”. A repressão da oferta só conseguiu elevar o preço da cocaína pura nos EUA, e pôr em circulação um produto superdegradado para consumo “popular”: o mortal crack.

    O capital financeiro internacional fica com a parte do leão, o que não impede que os grandes produtores se tornem um fator decisivo na economia de seus países. Na Colômbia, as exportações de cocaína atingem US$ 50 bilhões, três vezes o PNB. Calcula-se que os narcoempresários investem em torno de 45% em propriedades urbanas e rurais, 20% em gado, 15% em comércio e 10% na construção e no lazer. Mas sua atuação é também política. Em 1989, por exemplo, foram reveladas muitas negociações entre representantes do governo e o Cartel de Medelín. A semilegalidade concedida aos narcotraficantes, a sua aliança com a burguesia e o governo, visam os objetivos mais reacionários: os narcotraficantes colombianos aliaram-se aos fazendeiros e às forças de segurança de modo a proteger seus interesses comuns contra os grupos guerrilheiros e contra as crescentes demandas de reforma política e econômica dos setores mais carentes. O resultado desta aliança foi a complementação da ação da polícia com a dos “esquadrões da morte” que, em número de 140, submetem a uma verdadeira tutela terrorista a vida política e social do país.

    Na Colômbia, os traficantes estão entrelaçados com a oligarquia tradicional, mediante a compra de terras ou a substituição das culturas agrícolas, o que deu uma saída aos proprietários arruinados pela baixa do preço internacional do café. A desintegração do capitalismo colombiano, golpeado pela crise mundial, faz os traficantes florescerem.

    Na Bolívia, a reciclagem narcótica da economia foi diretamente impulsionada pelo Estado militar imposto a partir do final de 1971. O velho narcotráfico boliviano, marginal até então, desenvolveu-se graças a dois novos fatores: generosos créditos da banca estatal e privada (milhões de dólares), subsídios e impunidade pela sua ligação com os organismos de repressão ou pelo apadrinhamento oficial. Em 1976, Kissinger viajou secretamente à Bolívia, oferecendo créditos de US$ 45 milhões para impedir o progresso da cultura de coca. Mas os lucros do tráfico falaram mais alto: os “narcos” chegaram a tomar o poder através do general Garcia Meza.

    Guerra do ópio

    O comércio de drogas esteve vinculado à expansão internacional do capitalismo e também à sua expansão colonial-militar, como testemunha a Guerra do Ópio (1840-60), resultante da postura da Inglaterra como promotora do tráfico de ópio na China do século XIX, bem como das plantações deste mesmo narcótico em território indiano. A Inglaterra, como é sabido, mas pouco divulgado, auferia lucros exorbitantes da ordem de R$ 11 milhões com o tráfico de ópio para a cidade chinesa de Lintim. Ao passo que o volume de comércio de outros produtos não ultrapassava a cifra de R$ 6 milhões. Em Cantão, o comércio estrangeiro oficial não chegava a US$ 7 milhões, mas o comércio paralelo em Lintim atingia a quantia de US$ 17 milhões. Com este comércio ilegal, empresas inglesas, como foi o caso da Jardine & Matheson, contribuíram para proporcionar uma balança comercial superavitária para a Inglaterra, mesmo que, para tal, fosse necessário o uso de navios armados a fim de manter o contrabando litorâneo. Tudo isso acontecia com a aprovação declarada, e documentalmente registrada, do parlamento inglês, que por inúmeras vezes manifestou os inconvenientes da interrupção de um negócio tão rentável.

    A extraordinária difusão do consumo do ópio na Inglaterra do século XIX, ilustrada literariamente na popular figura do detetive cocainômano Sherlock Holmes, foi um sintoma da crise do colonialismo inglês. Nas palavras de Karl Marx (O capital), a idiotice opiácea de boa parte da população inglesa era uma vingança da Índia contra o colonizador inglês. Foi o que levou a própria Inglaterra a promover, em 1909, uma conferência internacional, em Shangai, com a participação de treze países (a Opium Commission). O resultado foi a Convenção Internacional do Ópio, assinada em Haia em 1912, visando ao controle da produção de drogas narcóticas. Em 1914, os EUA adotaram o Harrison Narcotic Act, proibindo o uso da cocaína e heroína fora de controle médico. Severas penas contra o consumo foram adotadas em convenções internacionais das décadas de 1920 e 1930. Desde o início, a repressão privilegiou o consumidor.

    Com a nova explosão de consumo, uma nova mudança se opera, e, em abril de 1986, o presidente Reagan assina uma Diretiva de Segurança Nacional, definindo o narcotráfico como “ameaça para a segurança nacional”, autorizando as forças armadas dos EUA a participarem da “guerra contra as drogas”. Em 1989, o presidente Bush, numa nova diretiva, ampliou a anterior, com “novas regras de participação” que autorizavam as forças especiais a “acompanhar as forças locais de países hospedeiros no patrulhamento antinarcóticos”. No mesmo ano, cursos “para combater guerrilheiros e narcotraficantes” tiveram início na Escola das Américas de Fort Benning, antigamente sediada no Panamá, vestibular de todos os ditadores latino-americanos.

    Articulação americana

    O aspecto mais importante, e menos comentado, da articulação EUA/governos constitucionais latino-americanos versus tráfico de drogas, é a criação de uma inédita jurisprudência avassaladora da soberania nacional da América Latina. O tratado de extradição com a Colômbia se enquadra nessa categoria, assim como a decisão de fevereiro de 1990, da Suprema Corte dos EUA (perseguição e captura de estrangeiros pelas forças dos EUA, dentro e fora do país, não estão sujeitas à Quarta Emenda da Constituição dos EUA) que abriu as portas a intervenções ilimitadas, como a da polícia antidroga dos EUA (DEA), seqüestrando o presumido traficante Alvarez Machain, no México, ou o Exército capturando Noriega, no Panamá. Os EUA estabeleceram unilateralmente nada menos do que a sua superioridade jurídica perante os países latino-americanos e do mundo inteiro.

    Que esta jurisprudência nada mais é do que a ante-sala da intervenção militar direta, fica provado pelos exemplos anteriormente citados e também pela crescente militarização da fronteira dos EUA com o México. A droga é o pretexto para esse objetivo. Se os EUA tivessem vontade política de combater o narcotráfico poderiam exercer um severo controle das exportações de produtos químicos para fabricação da PBC (Pasta de Base da Cocaína), que provém da Shell e da Móbil Oil, como constatou a própria DEA (The Miami Herald, edição de 8 de fevereiro de 1990); agir contra os bancos norte-americanos que lavam os narcodólares; e estender um cordão de radares e barcos para impedir a entrada da droga, em vez de fazer isso nos países da América do Sul. Ou, como se perguntam dois “experts” norte-americanos: por que não se faz a guerra também contra os países produtores de ópio e heroína, que consomem nos EUA 50% dos gastos totais em drogas? Por que não fazê-la contra os produtores californianos de maconha, que depois de substituir a Colômbia no primeiro lugar do fornecimento dessa droga, colocaram os EUA entre os três primeiros produtores mundiais? Estatísticas oficiais mostram que a produção de maconha nos EUA dobrou nos últimos dois anos, expandindo-se 38% só em 1988.

    O enfoque apontado também prevalece nos documentos oficiais dos EUA no que diz respeito aos problemas internos: a lei dos EUA tem que ser reforçada, reduzindo os benefícios para os traficantes e aumentando os riscos para os consumidores. Os EUA podem criar um modelo tanto para a redução da demanda quanto para o reforço do sistema Judicial. Mas o enfoque baseado na repressão do consumo e da oferta é inútil por definição. Os países latino-americanos produziram entre 162 mil e 211,4 mil toneladas de cocaína em 1987. Isto é cinco vezes o necessário para abastecer o mercado dos EUA, e só conseguiu apreender entre 10 e 15% da cocaína enviada. Esse enfoque serve apenas para reforçar o controle da população pelo Estado, e para manipulações com objetivos políticos reacionários, cujo alcance a remoção do prefeito negro de Washington, Marion Barry, só fez antecipar.

    Estamos, portanto, diante de uma vasta operação política que visa, sob pretexto de repressão ao tráfico de drogas, acabar com a independência nacional dos países atrasados e reforçar a direitização do Estado capitalista nos EUA.

    Incapaz de cortar a “oferta”, o que exigiria atacar a fundo o direito de propriedade (sigilo bancário), o capitalismo em decomposição é mais impotente ainda para enfrentar a demanda, já que é absolutamente incapaz de abrir uma via progressiva para o desenvolvimento social.

    O fim da droga é insolúvel diante do capitalismo.

    Como vc vê o Brasil não passa de mero fantoche da midia internacional.

    Roberto.

  7. E não esquecendo que a Europa: maior produtora de ecstasy.
    O maiores produtores de anfetaminas estão no sudeste da Ásia (incluindo Mianmar, China e Filipinas) e América do Norte (Estados Unidos).

    1. Oie Roberto!

      Não tenho mais nenhuma palavra para escrever sobre o assunto, depois do seu comentário!

      Mais palavras são absolutamente DESNECESSÁRIAS…

      Abraço.

      1. Infelizmente não são palavras dele. Fez copy/paste no google. Devia ter citado a fonte! É muito feio apoderarmo-nos daquilo que outros escreveram e querermos parecer mais espertos que somos.

      2. Roberto, cite a fonte de pesquisa aí, então…

        Continuo achando perfeitas as considerações, não importa de onde vieram.

  8. Me desculpe, Frade, você tem razão em relação ao relatado, mas está equivocado em relação a crítica de minha pessoa. Pois a minha intenção não era me apoderar daquilo que não me pertence, fiz uma pesquisa para poder relatar algo veridico com pessoa de alto gabarito que tem condições para impor a realidade em relação a esse assunto, que me afeta diretamente se tratando da imagem de meu BRASIL, não ficando somente em mera conjectura. Sendo assim, meu caro amigo, minha intenção não seria de ser mais esperto que A ou B mas sim de poder informar pessoas inteligentes como vc sobre a realidade das drogas em nivel internacional, não podendo deixar de levar em consideração que, por volta do ano de 2004 o governo australiano contribuiu para a manutenção desse mercado, pois ele autorizou a abertura de salas especiais para viciados em heroína, nas quais o usuário podia injetar a droga sob supervisão médica, influenciando a Espanha e Alemanha a desenvolveram programas semelhantes.

    Fontes:

    Osvaldo Coggiola é um intelectual trotskista argentino. Possui graduação em História pela Universidade de Paris VIII (1977) , graduação em Economia pela Universidade de Paris VIII (1979) , especialização em História pela Universidade de Paris VIII (1979) , mestrado em História pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais/França (1980) , doutorado em História Comparada das Sociedades Contemporâneas pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais/França (1983) e pós-doutorado pela Universidade de São Paulo (1998) . Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo(USP) e professor nos cursos de jornalismo e economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Coggiola tem experiência na área de História, com ênfase em História Moderna e Contemporânea

    1. Beto, MUITO OBRIGADA!

      Isso sim é entender bem de onde vem um ESTEREÓTIPO! O cara é fera, mesmo!

      Fontes devidamente anotadas, crédito dado ao escritor do artigo!

      Abraço grande, meu querido!

  9. Nossa Carolina… este seu post “causou” mesmo heheheh
    Chorei de rir ao ler sobre as perguntas que te fizeram hehehhee

    Quando estive nos USA, nunca me abordaram assim… Mas deixa te contar uma, um colega meu hospedou uma jovem – adolescente – por um programa de intercâmbio… você acredita que ela trouxe na mala um monte de chocolate porque acreditava que aqui não tinha???!!!!

    Abraço!

    1. Pois é, Paulo!

      Desabafei aqui e olha no que deu! Hahahahah!

      Acredito, sim! Não me espanto mais com nada nessa vida!

      Grande abraço…

  10. Nossa, quanta ignorância.Praticamente acham que no Brasil só tem DROGAS, sendo que isso é no mundo inteiro.E referente a morar na floresta, meu pai é de Manaus, gente, lá eles andam como os paulistas, vestidos, arrumados é uma vida normal.Eles tem a cultura deles baseada no povo indigena, tem algumas tribos na floresta, que por sinal me faz lembrar que muitos estão doentes e vivem com recursos precários, mas jamais isso impediu um índigena de ser alguém melhor( detalhe o povo índigena ama a sua cultura), e tem mais para quem não sabe Manaus e o principal centro financeiro, corporativo e econômico da Região Norte do Brasil.Carol seu post foi maravilhoso, vc tem toda razão em ficar brava.

    Bjs

  11. Esteriótipo ignorante! No Brasil há muito o que melhorar, mas como em qualquer país, há coisas ruíns também …. mas isso não é o que marca o Brasil, não!!!! Não dá para aceitar!
    Amei o seu post!
    Beijos!

    1. Todo estereótipo começa na ignorância, não é?!?

      Mas o Brasil é muito mais que isso, com certeza!

      Obrigada por ter gostado… Foi meio que um desabafo, até um pouco mal interpretado, mas valeu!

      Beijos!

  12. Oi Carolina,

    Parabéns, seu blog é ótimo e estou adorando lê-lo!!
    Estou de mudança para Melbourne, nas próximas semanas, estou super ansiosa com a mudança, e se possível gostaria que me adicionasse no messenger para que possa pedir algumas dicas, tirar dúvidas com vc. Meu e-mail é nathaliamresende@hotmail.com

    Abraços

    1. Uau, Karim! Você comentando aqui no meu Blog, que honra!
      Pois é… Quem me conhece diz que escrevo como eu falo, que é possível me ver falando o que escrevo… Você me conhece muito bem, né? O que acha????
      Deus é Deus, sempre! E isso é o que realmente importa nessa vida…

      Saudade, muita!

      Beijos

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