Brasileiros Ao Redor De Uma Mesa

Numa mesa rodeada de amigos brasileiros e um chá da tarde maravilhoso, conversávamos ontem sobre nossa experiência de viver fora do Brasil, nossas lutas e adaptações, o processo doloroso e longo de, enfim, se redescobrir, se reinventar e se ver definitivamente inserido no lugar que escolhemos pra viver. Quando esse assunto vem à tona, inevitavelmente o meu Blog é citado como fator muito importante no meu processo de adaptação e meu período de depressão e saudade excessiva de casa, no começo da nossa jornada por aqui. Alguns desses amigos ao redor da mesa, não por coincidência, são pessoas que conheci através do Blog, dando dicas, sugestões, respondendo perguntas e construindo, lentamente, relacionamentos que hoje se tornaram parte da minha história de vida aqui na Austrália.

Comentamos inclusive, que há muito tempo eu estava sem escrever e sem responder comentários por aqui. Perdoem-me todos aqueles que estão na espera, até mesmo os que já desistiram; tenho estado bastante ocupada estudando e trabalhando! A vida de fato seguiu; as coisas realmente aconteceram, e hoje me encontro quase sem tempo pro meu amado turismo australiano e pra atualizar meu Blog queridinho. “Antes tarde do que MAIS tarde”, diria a sabedoria popular internáutica facebookiana! Hahaha!

O que conversamos ao redor daquela mesa, por horas, seria de uma riqueza imensurável a cada brasileiro que sonha um dia deixar nosso país e se aventurar em terras australianas… É tanta riqueza, são tantas experiências de vida, conquistas, a busca constante do “lugar ao sol”, muitas lágrimas derramadas ao longo do processo, muita saudade “de casa”! Comentei com o pessoal que certamente iria escrever hoje, inspirada pelo papo simples de imigrantes brasileiros numa tarde de sábado qualquer. Relembrei meu próprio processo, de dor, de saudade, de não falar Inglês, até de depressão nos primeiros anos. E é gratificante demais quando a gente olha para trás, relembra, revive e até re-visita alguns lugares escondidos dentro da nossa alma, e se surpreende com nosso próprio processo de superação pessoal.

Numa mesa cheia de imigrantes brasileiros, longe de casa, se fala de futebol, de Copa do Mundo, de política, de corrupção; se fala de comida (enquanto se come muito, sempre!), de carreira, de oportunidades, de saudade e de família. Mas acima de tudo, se fala apaixonadamente de esperança, de futuro, de afinidades e sentimentos ambíguos; se compartilha sonhos,  experiências, se fala de trabalho e de expectativas. Muitas vezes falamos de frustrações e decepções; muitas vezes choramos juntos e nos emocionamos com o processo do outro…

Pessoas tão diferentes, de várias partes do nosso país, que se encontram do outro lado do mundo e estreitam laços de amizade e muitas vezes até de família mesmo. Algumas delas, tão fascinantes e de personalidades tão encantadoras, me fazem silenciar e agradecer a oportunidade de estar ali. Momentos como esses só são possíveis, porque um dia, cada uma dessas pessoas ao redor daquela mesa, decidiu sair de sua zona de conforto e ir em busca de algo… O processo de imigração exerce sobre mim um fascínio tão grande, que faz tudo valer a pena; e a coisa mais gratificante desse processo todo, com certeza, são os imigrantes com quem a gente esbarra no caminho, tornando essa aventura cada vez mais fascinante. Gente diferente, com diferentes crenças, hábitos, idéias, profissões, mas com histórias de vida encantadoras… Por si só, isso já é um grande privilégio e de um crescimento pessoal indescritível.

“Uma mente uma vez expandida jamais retorna ao seu estado original”- Albert Einstein

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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5 Anos de Blog (Nunca pensei que chegaria até aqui)!

Dia desses uma grande *amiga brasileira, que conheci através do Blog, me disse carinhosamente que eu não poderia nunca abandonar esse espaço, porque foi através dele que começamos a nossa amizade.  Imediatamente me bateu uma sensação tão estranha de abandono e esquecimento, que cortou o coração… É verdade. Esse espaço já me trouxe tanta alegria, orgulho, já foi meu conselheiro, meu terapeuta; tantas lágrimas já foram derramadas no meu teclado, enquanto escrevia. Praticamente, esse cantinho aqui foi minha terapia por muito tempo. Sem contar as grandes e incríveis amizades que nasceram exatamente nas linhas de tantos posts. A história desse Blog se confunde com a minha história na Austrália!

Confesso publicamente, e de coração partido, que acabei deixando esse meu companheiro de lado, porque hoje em dia a solidão não faz mais parte da minha vida australiana. Depois de tanto tempo, a gente constrói uma rotina, um grupo de amigos, uma nova vida no lugar que escolheu pra viver e, por memória curta, acaba permitindo algumas prioridades em detrimento de outras. Eu não sou uma blogueira. Definitivamente. Isso aqui não se tornou um vício, uma “religião”, um desespero, nem mesmo um ganha-pão, como a maioria dos blogs acaba virando. De maneira alguma. Meu (quase abandonado) Blog sempre foi meu lugarzinho de desabafo, de dividir sentimentos, frustrações, de compartilhar o que eu sentia vontade, QUANDO sentia vontade. Por esse motivo, nunca “profissionalizei” a coisa, a despeito de muitos convites e da insistência de alguns amigos e leitores.

Na realidade, eu gosto assim: livre, do meu jeito, sem compromisso ou rabo preso. E gosto de aniversários também. Muito! Aí pensei comigo: Agosto é mês de aniversário do Blog, quase aniversário de chegada na Austrália. Meu “amigo” de escrita merece uma atenção especial; merece uma comemoração! Confesso também que nunca tive a pretensão de ter um espaço que sobrevivesse por longos 5 anos. Estamos celebrando Bodas de Madeira! NÃO, não vou fazer propaganda, nem sorteio de brindes para divulgar esse espaço. Muito menos vou fazer promoções pra você indicar o espaço para seus amigos e ganhar alguma coisa por isso! Para festejar com muito gosto, vou mesmo é investir um tempo respondendo a todos os comentários que ficaram perdidos por aqui, como eco nos meus ouvidos. Tenham paciência comigo e darei o meu melhor pra responder tudinho. E quero dedicar tempo pra esse meu queridinho espaço nesse mês de celebração. Quero comemorar fazendo com ele o que fazemos de melhor juntos: ESCREVER!

O mais interessante disso tudo é olhar pra trás e reler alguns dos posts antigos. Não tenho feito muito isso nos últimos tempos, mas me dá alegria e satisfação quando o faço. Ver o quanto a gente cresce, amadurece, muda e se transforma, acalenta o coração. É como ler um Diário de uma criança, que vai crescendo, amadurecendo, entra na adolescência e por fim se tornará um adulto. É assim que encaro a minha vida aqui, sempre em desenvolvimento, sempre em fase de transformação. E tudo que faz a gente sair da zona de conforto, da nossa área de ação segura, sempre gera essa sensação boa de crescimento. Hoje, cinco anos depois, posso afirmar com uma pontinha de satisfação interna, que mudar é bom, é positivo, agrega, amadurece, transforma paradigmas, muda ponto de vista, traz humildade e senso maior de interdependência. Nunca fui muito fã de mudanças… Sempre fui o tipo de pessoa pra quem os “cartões de fidelidade” foram inventados, da turma do “em time que está ganhando não se mexe”, sabem? Mas em minha pouca vivência e experiência de vida, posso afirmar que o saldo final de uma grande mudança é sempre positivo e recompensador, se formos corajosos. Mesmo que seja uma mudança, literalmente, pro outro lado do mundo…

* Esse post é dedicado à você, minha querida amiga Patrícia Tchakerian.

5-anos

Pequena Lista De Grandes Ajudas

Definitivamente, uma das coisas que as pessoas mais me perguntam, por email ou pessoalmente, quando falamos sobre o processo de adaptação fora do país da gente, é como fazer para tornar o começo mais fácil, menos doloroso ou, pelo menos, mais suportável. Enquanto respondo, várias pequenas coisinhas importantes vêm à minha mente. Sempre sugiro algumas delas, para vários tipos de pessoas diferentes. Hoje, quando fui pra cama, tinha acabado de responder à um email com o mesmo tipo de dúvida e ansiedade. Então pensei: uma hora vou ter que organizar uma lista sobre o assunto… (Apenas a título de curiosidade, eu ADORO uma lista!) Resultado? Fiquei rolando na cama, com a cabeça fervendo de palavras! Cá estou eu, às 2:50 da manhã, organizando uma lista de atitudes que podem garantir um pequeno refrigério na vida daqueles que, num belo dia (ou fatídico, depende do ponto de vista!), decidiram migrar pra outro canto do mundo.

Se um dia você bateu com a cabeça e decidiu mudar de vida, largar tudo e recomeçar em um novo lugar, talvez tenha também várias dicas. Essas que compilei hoje, em minha fracassada tentativa de sono, refletem bem a minha experiência pessoal, coisas que fui aprendendo com a minha própria vivência por aqui. Olhando hoje para trás, me assombro um pouco com essa coisa doida de juntar as poucas tralhas da gente e sair pelo mundo, tentando uma vida nova. Só pode ser coisa de gente estranha, não tem outra explicação! Perdoem-me todos os companheiros imigrantes, espalhados por esse mundão afora; mas NORMAL a gente não é… Não pode ser! De qualquer forma, anormal ou não, depois de consumado o fato, a gente tem mesmo é que tentar fazer do período de adaptação o melhor que a gente puder. O que tenho visto que ajuda? O seguinte:

APRENDER A LÍNGUA LOCAL: na boa, não tem nada que deixe a gente mais a vontade, do que falar o idioma do lugar que você escolheu pra viver. É difícil a gente ter a sensação de “pertencer”, se não consegue se comunicar, não é? Todo o esforço nesse sentido, só vai trazer benefícios. Se você tiver planos de construir ou continuar uma carreira, então, aí se torna IM-PRES-CIN-DÍ-VEL!

FAZER NOVAS AMIZADES: nem vem com esse papo de timidez, de que “eu não sou uma pessoa muito sociável”, porque aí vai ficar complicado. Sem amigos, fica impossível! Eles se tornam a família da gente longe de casa, embora isso não pareça algo muito simples. Primeiro: é impossível querer comparar seus amigos que ficaram lá no Brasil, que conviviam com você desde o Jardim da Infância, ou foram criados na mesma rua jogando bola, ou trabalharam com você durante toda a sua vida… A gente leva tempo para construir relacionamentos verdadeiros e na base da confiança; não foi assim ao longo de toda a sua vida? Será assim também no novo país; tenha paciência. Segundo: não é porque o cara é brasileiro que vai se tornar seu “BFF” (Best Friend Forever) da noite para o dia! Brasileiro no exterior tem essa mania: encontra um conterrâneo e já acha que encontrou uma “alma gêmea”!  Com o tempo, você vai percebendo que é fundamental ser amigo de gente que tem a ver com você e te acrescenta, te faz bem. E vice-versa. De qualquer forma, passar o período de adaptação sozinho só vai tornar as coisas mais duras pra você.

EXPLORAR O LOCAL: se você for como eu, vai amar descobrir cada cantinho legal do seu novo lugar. Gaste tempo andando, conhecendo, passeando, explorando, experimentando… Em breve, terá novos lugares prediletos, comidas preferidas e chegará até mesmo a se questionar como pôde viver tanto tempo sem ter experimentado certas coisas incríveis, que agora fazem parte de sua rotina. Comigo funciona até hoje: bateu deprê, muita saudade, acordei com vontade de chorar? É dia de TURISMO!!! Com direito a câmera fotográfica!!! Olha, super ajuda!

CULTIVAR  SEU HOBBY: especialmente para quem veio de uma rotina frenética no Brasil, como eu, sem tempo pra quase nada, chegar aqui foi um (bom) susto! Até me acostumar com uma vida BEM mais calma, tranquila e sem tantos compromissos, levou tempo. E como é bom você enfim ter momentos só seus, para fazer o que realmente te dá prazer! É isso. A palavra é PRAZER. Busque fazer coisas que trazem alegria interior, que colocam um sorriso por dia no seu rosto… Muda tudo!

PRATICAR EXERCÍCIOS FÍSICOS: não é segredo pra ninguém que a prática constante de exercícios libera uma substância natural chamada endorfina, que regula a emoção e traz sensação de bem estar. Nem todo mundo é fã disso, eu sei, mas é importante que você descubra algo que gosta de fazer e vá fundo! Os efeitos são incríveis!

CONHECER-SE MAIS: querendo ou não, buscando ou não, a experiência de mudar-se pra longe vai revelar coisas sobre você, seus sentimentos, seus valores, seus hábitos, suas posturas na vida, sua essência… Tudo fica muito à flor da pele; as coisas tomam proporções desenfreadas, muitas vezes… Esteja pronto para surpreender-se consigo mesmo! E para o próximo item da lista:

RESPEITAR-SE: com a melhora do auto-conhecimento, a gente passa a valorizar muito mais a si mesmo. É importante CONHECER e RESPEITAR seus limites. Vai ter dia que você vai querer sumir do mundo; outros, em que vai se arrepender profundamente de ter migrado! Haverá dia que você vai se perguntar mil vezes: que raios eu estou fazendo aqui??? E vai ter dia de bode, que vai querer curtir a saudade, ficar no seu canto até a coisa passar… Vá lá, permita-se! Mas não se demore muito lá, porque deprê também vicia.

MANTER CONTATO COM GENTE IMPORTANTE PRA VOCÊ: ô ponto delicado, esse! Quando a gente muda pro exterior, parece até que vira celebridade. Um batalhão de gente te adiciona no Facebook, Orkut, Google+, Twitter, e tudo quanto é raio de rede social. Sua vida parece que passa a ser mais interessante pros outros. E até gente que parece amar mais você do que antes. É, acontece… E quer saber? O tempo e a distância são excelentes formas de aperfeiçoamento de relações: o que é verdadeiro, até se estreita; o que não é, vai se tornando névoa, até você um dia perceber que está passando muito bem sem aquela pessoa, obrigada!!! Mas tem um tipo de gente, que você pode rodar o mundo, ver coisas fascinantes, viver experiências incríveis, que ainda vai te fazer tanta falta, que em alguns dias, você mal vai conseguir respirar pela ausência delas! Com essas pessoas, faça o que for pra manter contato: você não vive MESMO sem elas!

E por fim, o mais importante:

CULTIVAR UM RELACIONAMENTO COM DEUS: ainda que você não seja uma pessoa “espiritualizada”, ou não se considere um cara “de fé”, em vários momentos você vai perceber que PRECISA crer em algo muito maior. Quando alguém que você ama adoece, por exemplo. Quando alguém morre e você estava longe sem poder dizer o que deveria ser dito. Ou quando você adoece e se sente sozinho, sem as pessoas que mais ama por perto… Enfim, existem momentos que somente a fé mantém a gente em pé. Especialmente longe de casa, das pessoas de sempre e da nossa zona de conforto. Manter a fé operante num momento de tantas mudanças só contribui positivamente, é sério. Sem a minha fé, eu já teria chutado tudo isso aqui pra cima, logo no começo. Obrigada Deus, por ter me ajudado até aqui!

Nossa gente, o post ficou enorme! Desculpe-me. E lá se foi uma noite de sono. Porém, se eu conseguir ajudar alguém com a minha experiência, já terá valido muito a pena… Ufa! Agora posso dormir. As palavras por fim ocuparam seu lugar e minha mente ficou em silêncio…

fugindo de casa

Voltando Para Casa…

Antes de mais nada, gostaria de pedir desculpas a todos os leitores do Blog, pela minha ausência tão longa. Estou em débito com um montão de gente, comentários, pedidos de ajuda… Vou responder um a um, garanto; apenas tenham paciência comigo! No final do ano que passou, eu andei meio ocupada com a vida em geral e ainda inclui nela uma viagem ao Brasil, de férias, para rever família, amigos e passar as festas de fim de ano, em dezembro/janeiro. Como a maioria dos brasileiros, cuja rotina de vida real começa apenas pós-Carnaval, aqui estou eu entrando de novo na minha rotina, muito ansiosa para escrever… Quem acompanha os meus escritos por aqui, sabe que gosto mesmo de compartilhar minhas sensações, sentimentos e conflitos mais intensos, que digam respeito à essa minha dramática e profunda relação Brasil-Austrália. Pois bem, essa foi a primeira vez que fui ao Brasil GOSTANDO de verdade de viver na Austrália.

Para quem não me conhece ou ainda não leu sobre a minha difícil adaptação aqui na Terra dos Cangurus, vale ressaltar que sofri bastante pra me acostumar, aceitar e até mesmo deixar crescer dentro de mim um sentimento de amor por esse lugar. E fico entusiasmada por poder compartilhar o que sinto, porque acredito que vai ajudar muita gente que passa pelos mesmos conflitos…Hoje, posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que essa última viagem à Terrinha foi imprescindível para fechar definitivamente algumas lacunas em meu mundo interior. Fechei um ciclo muito doloroso, entre o desejo de voltar ao Brasil e o de permanecer vivendo aqui. Desde que me abri, de fato, para aceitar minha nova vida por aqui, tudo dentro de mim mudou. Estar no Brasil foi maravilhoso, especialmente em época de férias, Natal, Ano Novo, meu aniversário… É muito bom rever as pessoas, lugares, cheiros, gostos, emoções, sensações; mas também é doloroso ver que muitas coisas mudam, outras não mudam nada, pessoas mudam, atitudes também! Enfim, vivi de tudo um pouco nesse tempo que passei por lá.

Diferentemente da minha ida anterior, em 2010, não me senti tão a vontade quando estava por lá. Senti falta da Austrália, de verdade. Senti saudade da minha vida, dos meus amigos daqui. Pela primeira vez, me senti fora do meu “habitat natural”, estando nele… Pela primeira vez, me senti uma estranha várias vezes, em diversas situações. Pela primeira vez, me senti não fazendo parte de algo, de algum lugar ou situação. Inúmeras vezes me senti sozinha, esquisita, sobrando, até sonhando (literalmente) com Melbourne. Senti que estava meio fora “de lugar”… E que sensações estranhas foram aquelas! Me peguei diversas vezes surpreendida comigo mesma, com meus pensamentos e desejos. É incrível o quanto a gente muda. Graças a Deus por isso! Fico extasiada em observar a capacidade do ser humano em se auto-adaptar, se reinventar, reciclar, transformar-se! E eu me senti plena, VIVA, em constante mudança. Não que eu goste de grandes mudanças; longe de mim. Mas também não gosto de rotina, mais do mesmo, o de sempre…

A surpresa foi boa. O saldo foi positivo. Me senti confortável em minha própria pele. E sabe o quê? O melhor? EU GOSTEI! Em determinado momento, eu queria voltar. Pra Austrália. Bem, vou escrever de novo, porque isso ainda está soando estranho aos meus ouvidos emocionais: eu estava no Brasil e estava querendo VOLTAR! E então minha ficha caiu: finalmente, eu já sabia onde estava meu coração; já sabia onde é o lugar que meu interior reconhece agora como “LAR”. Senti paz. Como não sentia há alguns anos… E por fim, após quase 30 horas de vôo, quando botei meus pés em solo aussie novamente, aquela sensação incrível encheu meu peito de algo que nem sei descrever, e eu pude enfim dizer pra mim mesma: EU ESTOU EM CASA!!!

Dia de Aniversário Número 4

Pois é. Quem diria? “O tempo passa, o tempo voa.” O que não passa é a saudade, a lembrança, a vontade de estar perto de quem se ama. Pensei muito sobre o que eu poderia escrever para comemorar o quarto aniversário de Austrália, mas a conclusão foi óbvia: como sempre, decidi que deveria escrever com o coração, ser sincera. Falar a verdade. Pelo menos, a minha verdade. Depois de todo esse tempo vivendo longe, posso garantir apenas um ponto: o que o tempo NÃO CURA MESMO é a falta que algumas pessoas fazem no nosso dia-a dia. Se eu tenho aprendido algo, que seja relevante compartilhar, esse algo seria o seguinte: apenas amor de verdade vence a barreira do tempo, da distância e da ausência.

Depois de quatro (longos) anos, a realidade é uma só: a nova língua, antes amedrontadora, a gente domina. A cultura, antes tão diferente, a gente se acostuma; na real, a gente até se amolda. Lidar com as diferenças no ambiente de trabalho, a gente reaprende. Enfrentar os desafios diários de uma nova sociedade, a gente tira de letra. Construir novos círculos de amizade, conhecer gente nova a todo instante, a gente se adapta. Temperatura, clima, comida, diversidade cultural, diferença de fuso horário, de moeda, a gente se ajusta. Mas ficar longe de quem a gente AMA, nunca se torna simples ou superável, não importa quanto tempo passe…

Pode parecer “tema de novela”, de filme, tema de poesia, verso ou prosa, até letra de música. Pode soar piegas, cafona, jargão, o que for… O grande e único desafio de morar fora é conviver com a falta que as pessoas importantes fazem em nossa vida diária. Isso não passa. Não há cura para a ausência de gente querida. A gente apenas aprende a administrar. E aí é que está o “pulo do gato”: administrar os sentimentos. Nunca antes controle emocional e domínio próprio me pareceram tão fundamentais! Há momentos em que a gente tem que parar, pensar e dizer a si mesmo: respira fundo, racionaliza e continua andando. E não pira, por favor!

Vale ressaltar que a gente aprende, inclusive (ou seria PRINCIPALMENTE?), a questionar cada vez mais a veracidade dos nossos sentimentos e dos sentimentos dos outros sobre nós. A gente aprende a valorizar quem realmente faz diferença na nossa vida, porque percebe que viver sem algumas pessoas é muito difícil; já outras, nem tanto… Distância supervaloriza relacionamentos de verdade e expõe relações superficiais. E tem coisa mais legal do que conhecer melhor a si mesmo, conhecer com mais clareza o que a gente sente, conhecer melhor as pessoas com quem a gente se relaciona, ou as bases de relacionamentos que construímos ao longo de uma vida???

Só tenho o que comemorar nesse aniversário de 4 anos. Tenho apenas motivos para brindar e celebrar. Um brinde à vida, aos verdadeiros amigos e verdadeiros amores, às pessoas que permanecem, mesmo estando distantes. Um brinde àqueles que se esforçam em permanecer presentes, mesmo que a distância física nos impeça o abraço. Àqueles que nos fazem rir, chorar, calar, amar, gargalhar, pensar, mesmo que um oceano nos separe. Um brinde aos novos amigos, que partilham com a gente a mesma dor da ausência. Um brinde ao país maravilhoso que nos recebeu de braços abertos. Um brinde àqueles que têm o privilégio de viver entre dois países, duas culturas, dois povos, duas línguas e ainda conseguem encontrar espaço em seus corações para AMAR e RESPEITAR a ambos. CHEERS!!!

O Poder de Cura da Auto-Permissão

Quem acompanha o meu Blog sabe que tento sempre animar a todos; levantar o astral, encorajar, motivar e dizer tudo que esse lugar tem de bom, de positivo, tudo que torna a Austrália um canto tão especial desse mundo! Afinal, se a minha opinião escrita não edifica, não encoraja e não motiva, nem acho que ela mereça ser ouvida (nesse caso, lida)! Porém, como todo mundo, tenho os meus dias de abrir os olhos e desejar voltar pra debaixo das cobertas e só sair de lá tipo, uns 2 meses depois… Nesses dias, a maior inimiga é a minha própria auto-motivação. Não me permito ficar chorando pelos cantos, resmungando, sofrendo, com pena de mim mesma. Nunca. Tenho técnicas altamente desenvolvidas para uso pessoal e divido isso com as outras pessoas. Quando acordo assim, começo logo a criar uma série de coisas pra fazer, tipo uma agenda de “renovo de ânimo” para o dia: vou passear pela linda cidade de Melbourne, sentar no meu café predileto, comer uma sobremesa divina de chocolate, sem nem pensar nas calorias; vou bater pernas no Shopping, ver vitrines, ou visitar meus pontos turísticos favoritos. Sempre funciona. E ensino isso para todas as pessoas que se sentem meio pra baixo por aqui…

Bem, longe de mim querer me contradizer, ou desabonar minha própria teoria de que, mudando de ares, de pensamento, de foco, de paisagem, as coisas vão melhorando dentro da gente. Acredito nisso. Faço isso. Vivo isso. Porém, hoje eu decidi me permitir… Acordei com uma saudade quase palpável, de tão forte. A presença dela era tão real, que quase pude vê-la e convidá-la para um café e uma boa prosa… Foi o que eu fiz! Não tentei fugir dela, nem enganá-la. Não criei subterfúgio algum para desviar a dor da mente, nem do coração. Ao contrário, me permiti sentir, com a força do meu coração! Chorei. Lembrei. Ouvi músicas. Revi fotos. Busquei fragmentos na memória, cheiros, cores, sabores, conversas, abraços, carinhos… Chorei de novo. Deixei recados nas timelines de alguns dos meus amores no Facebook. Declarei meu amor por eles. Chorei mais um pouco. Gastei algumas horas papeando no Skype com gente que amo  e sinto falta todo dia. E termino esse dia chorando mais um pouquinho e esperando minha mãe acordar lá no Brasil, pra poder ligar pra ela e falar do meu amor. E chorar mais um bocadinho, “no colo” de quem me socorreu a vida toda, quando eu sempre precisei…

Enfim, eu só queria que todas as pessoas pra quem já dei o conselho de superar a tristeza, dominar os pensamentos e as emoções ou mudar o rumo de um dia triste, soubessem que a gente se permitir sofrer em algumas ocasiões também é curador. Curtir um pouquinho de saudade, de amor não correspondido ou qualquer tipo de perda, também é um meio de extravasar a angústia de dentro do peito. Mas vamos combinar?  Amanhã a gente já retoma o controle da situação, certo???

A razão da minha saudade…

Depósito No Banco Emocional

Certa vez li em um livro (agora não me lembro qual foi), que relacionamentos são construídos e alimentados como num “Banco” emocional. Para utilizar os serviços de um Banco, você precisa primeiro abrir uma conta, depositar dinheiro lá, para só então poder sacar, investir, emprestar ou fazer todas as outras transações bancárias. A nossa vida emocional funciona de maneira muito semelhante: é preciso primeiro investir, depositar, cuidar, construir, para que se possa fazer um bom uso da “conta corrente”. Você deve estar se perguntando do que estou tentando falar, afinal… É que essa semana estive pensando em alguns relacionamentos construídos ao longo da minha vida e estava fazendo o link com o assunto abordado no tal livro. Meu maior depósito emocional atualmente são as palavras de minha mãe.

Não é mistério para ninguém que o apoio emocional da família, ou daqueles que a gente ama, é FUNDAMENTAL em qualquer tipo de mudança na vida. Somos seres que precisam de apoio, incentivo, acordo. Especialmente, quando o assunto é MUDAR DE PAÍS… O apoio da família, amigos, pessoas importantes pra gente, acaba fazendo toda a diferença. É claro que se trata de uma questão muito paradoxa, porque aqueles que amam a gente, querem nos ter por perto. Fato. Mas quem ama mesmo, acima de tudo, deseja ver a gente bem, feliz, vivendo o melhor de Deus para as nossas vidas. Sem querer parecer piegas, ou abusar de jargões românticos, o amor verdadeiro não é egoísta, nem egocêntrico.

Dia desses, falando com a minha mãe querida ao telefone, fui percebendo o quanto o apoio dela tem sido fundamental em minha adaptação por aqui. Bem, minha mãe é uma mulher simples, que muito cedo parou de estudar, para trabalhar e ajudar no sustento de sua família, em virtude da morte do meu avô. Seu maior sonho era ser Professora, mas ela não conseguiu realizá-lo. A vida, os problemas, as dificuldades, acabaram por impedir minha mãe de se formar e adquirir uma formação secular, mas nunca foram empecilhos para que ela se tornasse uma mulher de muita sabedoria. Em sua simplicidade, posso afirmar que ela é a mulher mais forte, guerreira e determinada que eu conheço e, ao mesmo tempo, de uma doçura ímpar. Não existem traços de amargura, rebeldia ou insatisfação em seu caráter. Com os limões que a vida traz, ela sempre encontra um jeitinho de fazer limonada, extraindo o melhor de absolutamente TUDO! Tem o coração mais grato que eu já conheci…

Em nossa última conversa, depois de uma hora e meia batendo papo, sobre os mais diversos assuntos, ela começou a dizer o quanto eu devo ser grata pela experiência de viver na Austrália. Lembrou-me de quando meu marido, ainda adolescente, saiu de casa para estudar em outra cidade, do quanto ele estudou, batalhou, fez estágio, Inglês, até chegar à essa oportunidade que a vida reservou para nós. E começou a dizer o quanto ela se sente feliz pela gente, pelos netos que têm tido a chance de receber uma formação aqui, por saber que temos qualidade de vida, segurança, enfim, pela nossa realidade de vida aqui em Melbourne… Inevitavelmente, comecei a me analisar, ouvindo ela falar com tanto entusiasmo, me questionando se eu mesma tenho tido essa clareza e frescor de pensamento, com relação a essa nossa experiência de vida. E ela me dizia para tirar disso tudo o máximo de coisas boas que eu conseguir… E terminou dizendo que ela sente muita falta da gente, mas quando ela pensa em como isso tudo é bom para nós todos, o coração dela fica cheio de alegria! Uma incentivadora nata, essa minha mãe…

Essa motivação, que brota das palavras dela, me contagia sempre e, quando desligo, estou com o coração cheio de coragem, para enfrentar os desafios de viver longe, de ser estrangeiro numa outra terra, de vencer os obstáculos que a gente enfrenta a cada momento, longe “de casa”… Sinto como se tivesse feito a escolha “certa”. Sei que nem todas as famílias, nem todas as mães, conseguem pensar ou falar do mesmo modo, por isso decidi compartilhar a “fofurice” da minha própria mãe com todos vocês que leêm o meu Blog.

Ao terminar essa nossa última conversa, eu estava chorando, porque me bateu uma saudade arrebatadora dentro do peito, uma vontade incontrolável de abraçar a minha mãe bem forte. Vontade de sugar cada palavrinha dela e guardar bem amarradinho no fundo do meu coração, para nunca esquecer do que ela me diz… Então, ela começou a dizer: “Não chora minha filha, vai ficar tudo bem!” E perguntou porque eu estava chorando tanto. Disse que era saudade, pura e simples. E ela então me respondeu: “Saudade é uma coisa boa, sabia? Porque quando a gente sente a saudade é porque a pessoa foi pra longe da gente e mesmo assim o sentimento nunca muda. A gente descobre que, mesmo longe, continua amando do mesmo jeito. Isso não é uma coisa boa? Eu te amo do mesmo jeito, todo dia.”

E eu, aqui do meu lado do mundo, fechei os olhos e agradeci de coração a Deus, pela minha vida, pela oportunidade de estarmos aqui, por aprender mais sobre a saudade, e acima de tudo, pela vida da minha mãe. Sem sombra de dúvida, não existe NENHUMA outra pessoa no mundo inteiro, de quem eu gostaria de ter vindo. Tenho orgulho de ser filha dela. Tenho orgulho de ser quem eu sou, porque sou assim por ser filha dela. Se no final da minha vida, eu conseguir me tornar, um pouquinho que seja, parecida com ela, terá valido a pena!  E agradeço pelo incentivo que ela me dá, pelas suas atitudes e palavras doces, nunca permitindo que eu me sinta culpada ou egoísta por estar vivendo tão longe. E, como ela mesma já me disse tantas vezes, “se eu te amo, eu quero sempre o melhor para você, mesmo que o seu melhor seja aí na Austrália.”

Minha mãezinha linda e eu!
Minha mãezinha linda e eu!