Brasileiros Ao Redor De Uma Mesa

Numa mesa rodeada de amigos brasileiros e um chá da tarde maravilhoso, conversávamos ontem sobre nossa experiência de viver fora do Brasil, nossas lutas e adaptações, o processo doloroso e longo de, enfim, se redescobrir, se reinventar e se ver definitivamente inserido no lugar que escolhemos pra viver. Quando esse assunto vem à tona, inevitavelmente o meu Blog é citado como fator muito importante no meu processo de adaptação e meu período de depressão e saudade excessiva de casa, no começo da nossa jornada por aqui. Alguns desses amigos ao redor da mesa, não por coincidência, são pessoas que conheci através do Blog, dando dicas, sugestões, respondendo perguntas e construindo, lentamente, relacionamentos que hoje se tornaram parte da minha história de vida aqui na Austrália.

Comentamos inclusive, que há muito tempo eu estava sem escrever e sem responder comentários por aqui. Perdoem-me todos aqueles que estão na espera, até mesmo os que já desistiram; tenho estado bastante ocupada estudando e trabalhando! A vida de fato seguiu; as coisas realmente aconteceram, e hoje me encontro quase sem tempo pro meu amado turismo australiano e pra atualizar meu Blog queridinho. “Antes tarde do que MAIS tarde”, diria a sabedoria popular internáutica facebookiana! Hahaha!

O que conversamos ao redor daquela mesa, por horas, seria de uma riqueza imensurável a cada brasileiro que sonha um dia deixar nosso país e se aventurar em terras australianas… É tanta riqueza, são tantas experiências de vida, conquistas, a busca constante do “lugar ao sol”, muitas lágrimas derramadas ao longo do processo, muita saudade “de casa”! Comentei com o pessoal que certamente iria escrever hoje, inspirada pelo papo simples de imigrantes brasileiros numa tarde de sábado qualquer. Relembrei meu próprio processo, de dor, de saudade, de não falar Inglês, até de depressão nos primeiros anos. E é gratificante demais quando a gente olha para trás, relembra, revive e até re-visita alguns lugares escondidos dentro da nossa alma, e se surpreende com nosso próprio processo de superação pessoal.

Numa mesa cheia de imigrantes brasileiros, longe de casa, se fala de futebol, de Copa do Mundo, de política, de corrupção; se fala de comida (enquanto se come muito, sempre!), de carreira, de oportunidades, de saudade e de família. Mas acima de tudo, se fala apaixonadamente de esperança, de futuro, de afinidades e sentimentos ambíguos; se compartilha sonhos,  experiências, se fala de trabalho e de expectativas. Muitas vezes falamos de frustrações e decepções; muitas vezes choramos juntos e nos emocionamos com o processo do outro…

Pessoas tão diferentes, de várias partes do nosso país, que se encontram do outro lado do mundo e estreitam laços de amizade e muitas vezes até de família mesmo. Algumas delas, tão fascinantes e de personalidades tão encantadoras, me fazem silenciar e agradecer a oportunidade de estar ali. Momentos como esses só são possíveis, porque um dia, cada uma dessas pessoas ao redor daquela mesa, decidiu sair de sua zona de conforto e ir em busca de algo… O processo de imigração exerce sobre mim um fascínio tão grande, que faz tudo valer a pena; e a coisa mais gratificante desse processo todo, com certeza, são os imigrantes com quem a gente esbarra no caminho, tornando essa aventura cada vez mais fascinante. Gente diferente, com diferentes crenças, hábitos, idéias, profissões, mas com histórias de vida encantadoras… Por si só, isso já é um grande privilégio e de um crescimento pessoal indescritível.

“Uma mente uma vez expandida jamais retorna ao seu estado original”- Albert Einstein

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5 Anos de Blog (Nunca pensei que chegaria até aqui)!

Dia desses uma grande *amiga brasileira, que conheci através do Blog, me disse carinhosamente que eu não poderia nunca abandonar esse espaço, porque foi através dele que começamos a nossa amizade.  Imediatamente me bateu uma sensação tão estranha de abandono e esquecimento, que cortou o coração… É verdade. Esse espaço já me trouxe tanta alegria, orgulho, já foi meu conselheiro, meu terapeuta; tantas lágrimas já foram derramadas no meu teclado, enquanto escrevia. Praticamente, esse cantinho aqui foi minha terapia por muito tempo. Sem contar as grandes e incríveis amizades que nasceram exatamente nas linhas de tantos posts. A história desse Blog se confunde com a minha história na Austrália!

Confesso publicamente, e de coração partido, que acabei deixando esse meu companheiro de lado, porque hoje em dia a solidão não faz mais parte da minha vida australiana. Depois de tanto tempo, a gente constrói uma rotina, um grupo de amigos, uma nova vida no lugar que escolheu pra viver e, por memória curta, acaba permitindo algumas prioridades em detrimento de outras. Eu não sou uma blogueira. Definitivamente. Isso aqui não se tornou um vício, uma “religião”, um desespero, nem mesmo um ganha-pão, como a maioria dos blogs acaba virando. De maneira alguma. Meu (quase abandonado) Blog sempre foi meu lugarzinho de desabafo, de dividir sentimentos, frustrações, de compartilhar o que eu sentia vontade, QUANDO sentia vontade. Por esse motivo, nunca “profissionalizei” a coisa, a despeito de muitos convites e da insistência de alguns amigos e leitores.

Na realidade, eu gosto assim: livre, do meu jeito, sem compromisso ou rabo preso. E gosto de aniversários também. Muito! Aí pensei comigo: Agosto é mês de aniversário do Blog, quase aniversário de chegada na Austrália. Meu “amigo” de escrita merece uma atenção especial; merece uma comemoração! Confesso também que nunca tive a pretensão de ter um espaço que sobrevivesse por longos 5 anos. Estamos celebrando Bodas de Madeira! NÃO, não vou fazer propaganda, nem sorteio de brindes para divulgar esse espaço. Muito menos vou fazer promoções pra você indicar o espaço para seus amigos e ganhar alguma coisa por isso! Para festejar com muito gosto, vou mesmo é investir um tempo respondendo a todos os comentários que ficaram perdidos por aqui, como eco nos meus ouvidos. Tenham paciência comigo e darei o meu melhor pra responder tudinho. E quero dedicar tempo pra esse meu queridinho espaço nesse mês de celebração. Quero comemorar fazendo com ele o que fazemos de melhor juntos: ESCREVER!

O mais interessante disso tudo é olhar pra trás e reler alguns dos posts antigos. Não tenho feito muito isso nos últimos tempos, mas me dá alegria e satisfação quando o faço. Ver o quanto a gente cresce, amadurece, muda e se transforma, acalenta o coração. É como ler um Diário de uma criança, que vai crescendo, amadurecendo, entra na adolescência e por fim se tornará um adulto. É assim que encaro a minha vida aqui, sempre em desenvolvimento, sempre em fase de transformação. E tudo que faz a gente sair da zona de conforto, da nossa área de ação segura, sempre gera essa sensação boa de crescimento. Hoje, cinco anos depois, posso afirmar com uma pontinha de satisfação interna, que mudar é bom, é positivo, agrega, amadurece, transforma paradigmas, muda ponto de vista, traz humildade e senso maior de interdependência. Nunca fui muito fã de mudanças… Sempre fui o tipo de pessoa pra quem os “cartões de fidelidade” foram inventados, da turma do “em time que está ganhando não se mexe”, sabem? Mas em minha pouca vivência e experiência de vida, posso afirmar que o saldo final de uma grande mudança é sempre positivo e recompensador, se formos corajosos. Mesmo que seja uma mudança, literalmente, pro outro lado do mundo…

* Esse post é dedicado à você, minha querida amiga Patrícia Tchakerian.

5-anos

Pequena Lista De Grandes Ajudas

Definitivamente, uma das coisas que as pessoas mais me perguntam, por email ou pessoalmente, quando falamos sobre o processo de adaptação fora do país da gente, é como fazer para tornar o começo mais fácil, menos doloroso ou, pelo menos, mais suportável. Enquanto respondo, várias pequenas coisinhas importantes vêm à minha mente. Sempre sugiro algumas delas, para vários tipos de pessoas diferentes. Hoje, quando fui pra cama, tinha acabado de responder à um email com o mesmo tipo de dúvida e ansiedade. Então pensei: uma hora vou ter que organizar uma lista sobre o assunto… (Apenas a título de curiosidade, eu ADORO uma lista!) Resultado? Fiquei rolando na cama, com a cabeça fervendo de palavras! Cá estou eu, às 2:50 da manhã, organizando uma lista de atitudes que podem garantir um pequeno refrigério na vida daqueles que, num belo dia (ou fatídico, depende do ponto de vista!), decidiram migrar pra outro canto do mundo.

Se um dia você bateu com a cabeça e decidiu mudar de vida, largar tudo e recomeçar em um novo lugar, talvez tenha também várias dicas. Essas que compilei hoje, em minha fracassada tentativa de sono, refletem bem a minha experiência pessoal, coisas que fui aprendendo com a minha própria vivência por aqui. Olhando hoje para trás, me assombro um pouco com essa coisa doida de juntar as poucas tralhas da gente e sair pelo mundo, tentando uma vida nova. Só pode ser coisa de gente estranha, não tem outra explicação! Perdoem-me todos os companheiros imigrantes, espalhados por esse mundão afora; mas NORMAL a gente não é… Não pode ser! De qualquer forma, anormal ou não, depois de consumado o fato, a gente tem mesmo é que tentar fazer do período de adaptação o melhor que a gente puder. O que tenho visto que ajuda? O seguinte:

APRENDER A LÍNGUA LOCAL: na boa, não tem nada que deixe a gente mais a vontade, do que falar o idioma do lugar que você escolheu pra viver. É difícil a gente ter a sensação de “pertencer”, se não consegue se comunicar, não é? Todo o esforço nesse sentido, só vai trazer benefícios. Se você tiver planos de construir ou continuar uma carreira, então, aí se torna IM-PRES-CIN-DÍ-VEL!

FAZER NOVAS AMIZADES: nem vem com esse papo de timidez, de que “eu não sou uma pessoa muito sociável”, porque aí vai ficar complicado. Sem amigos, fica impossível! Eles se tornam a família da gente longe de casa, embora isso não pareça algo muito simples. Primeiro: é impossível querer comparar seus amigos que ficaram lá no Brasil, que conviviam com você desde o Jardim da Infância, ou foram criados na mesma rua jogando bola, ou trabalharam com você durante toda a sua vida… A gente leva tempo para construir relacionamentos verdadeiros e na base da confiança; não foi assim ao longo de toda a sua vida? Será assim também no novo país; tenha paciência. Segundo: não é porque o cara é brasileiro que vai se tornar seu “BFF” (Best Friend Forever) da noite para o dia! Brasileiro no exterior tem essa mania: encontra um conterrâneo e já acha que encontrou uma “alma gêmea”!  Com o tempo, você vai percebendo que é fundamental ser amigo de gente que tem a ver com você e te acrescenta, te faz bem. E vice-versa. De qualquer forma, passar o período de adaptação sozinho só vai tornar as coisas mais duras pra você.

EXPLORAR O LOCAL: se você for como eu, vai amar descobrir cada cantinho legal do seu novo lugar. Gaste tempo andando, conhecendo, passeando, explorando, experimentando… Em breve, terá novos lugares prediletos, comidas preferidas e chegará até mesmo a se questionar como pôde viver tanto tempo sem ter experimentado certas coisas incríveis, que agora fazem parte de sua rotina. Comigo funciona até hoje: bateu deprê, muita saudade, acordei com vontade de chorar? É dia de TURISMO!!! Com direito a câmera fotográfica!!! Olha, super ajuda!

CULTIVAR  SEU HOBBY: especialmente para quem veio de uma rotina frenética no Brasil, como eu, sem tempo pra quase nada, chegar aqui foi um (bom) susto! Até me acostumar com uma vida BEM mais calma, tranquila e sem tantos compromissos, levou tempo. E como é bom você enfim ter momentos só seus, para fazer o que realmente te dá prazer! É isso. A palavra é PRAZER. Busque fazer coisas que trazem alegria interior, que colocam um sorriso por dia no seu rosto… Muda tudo!

PRATICAR EXERCÍCIOS FÍSICOS: não é segredo pra ninguém que a prática constante de exercícios libera uma substância natural chamada endorfina, que regula a emoção e traz sensação de bem estar. Nem todo mundo é fã disso, eu sei, mas é importante que você descubra algo que gosta de fazer e vá fundo! Os efeitos são incríveis!

CONHECER-SE MAIS: querendo ou não, buscando ou não, a experiência de mudar-se pra longe vai revelar coisas sobre você, seus sentimentos, seus valores, seus hábitos, suas posturas na vida, sua essência… Tudo fica muito à flor da pele; as coisas tomam proporções desenfreadas, muitas vezes… Esteja pronto para surpreender-se consigo mesmo! E para o próximo item da lista:

RESPEITAR-SE: com a melhora do auto-conhecimento, a gente passa a valorizar muito mais a si mesmo. É importante CONHECER e RESPEITAR seus limites. Vai ter dia que você vai querer sumir do mundo; outros, em que vai se arrepender profundamente de ter migrado! Haverá dia que você vai se perguntar mil vezes: que raios eu estou fazendo aqui??? E vai ter dia de bode, que vai querer curtir a saudade, ficar no seu canto até a coisa passar… Vá lá, permita-se! Mas não se demore muito lá, porque deprê também vicia.

MANTER CONTATO COM GENTE IMPORTANTE PRA VOCÊ: ô ponto delicado, esse! Quando a gente muda pro exterior, parece até que vira celebridade. Um batalhão de gente te adiciona no Facebook, Orkut, Google+, Twitter, e tudo quanto é raio de rede social. Sua vida parece que passa a ser mais interessante pros outros. E até gente que parece amar mais você do que antes. É, acontece… E quer saber? O tempo e a distância são excelentes formas de aperfeiçoamento de relações: o que é verdadeiro, até se estreita; o que não é, vai se tornando névoa, até você um dia perceber que está passando muito bem sem aquela pessoa, obrigada!!! Mas tem um tipo de gente, que você pode rodar o mundo, ver coisas fascinantes, viver experiências incríveis, que ainda vai te fazer tanta falta, que em alguns dias, você mal vai conseguir respirar pela ausência delas! Com essas pessoas, faça o que for pra manter contato: você não vive MESMO sem elas!

E por fim, o mais importante:

CULTIVAR UM RELACIONAMENTO COM DEUS: ainda que você não seja uma pessoa “espiritualizada”, ou não se considere um cara “de fé”, em vários momentos você vai perceber que PRECISA crer em algo muito maior. Quando alguém que você ama adoece, por exemplo. Quando alguém morre e você estava longe sem poder dizer o que deveria ser dito. Ou quando você adoece e se sente sozinho, sem as pessoas que mais ama por perto… Enfim, existem momentos que somente a fé mantém a gente em pé. Especialmente longe de casa, das pessoas de sempre e da nossa zona de conforto. Manter a fé operante num momento de tantas mudanças só contribui positivamente, é sério. Sem a minha fé, eu já teria chutado tudo isso aqui pra cima, logo no começo. Obrigada Deus, por ter me ajudado até aqui!

Nossa gente, o post ficou enorme! Desculpe-me. E lá se foi uma noite de sono. Porém, se eu conseguir ajudar alguém com a minha experiência, já terá valido muito a pena… Ufa! Agora posso dormir. As palavras por fim ocuparam seu lugar e minha mente ficou em silêncio…

fugindo de casa

Voltando Para Casa…

Antes de mais nada, gostaria de pedir desculpas a todos os leitores do Blog, pela minha ausência tão longa. Estou em débito com um montão de gente, comentários, pedidos de ajuda… Vou responder um a um, garanto; apenas tenham paciência comigo! No final do ano que passou, eu andei meio ocupada com a vida em geral e ainda inclui nela uma viagem ao Brasil, de férias, para rever família, amigos e passar as festas de fim de ano, em dezembro/janeiro. Como a maioria dos brasileiros, cuja rotina de vida real começa apenas pós-Carnaval, aqui estou eu entrando de novo na minha rotina, muito ansiosa para escrever… Quem acompanha os meus escritos por aqui, sabe que gosto mesmo de compartilhar minhas sensações, sentimentos e conflitos mais intensos, que digam respeito à essa minha dramática e profunda relação Brasil-Austrália. Pois bem, essa foi a primeira vez que fui ao Brasil GOSTANDO de verdade de viver na Austrália.

Para quem não me conhece ou ainda não leu sobre a minha difícil adaptação aqui na Terra dos Cangurus, vale ressaltar que sofri bastante pra me acostumar, aceitar e até mesmo deixar crescer dentro de mim um sentimento de amor por esse lugar. E fico entusiasmada por poder compartilhar o que sinto, porque acredito que vai ajudar muita gente que passa pelos mesmos conflitos…Hoje, posso afirmar, sem sombra de dúvidas, que essa última viagem à Terrinha foi imprescindível para fechar definitivamente algumas lacunas em meu mundo interior. Fechei um ciclo muito doloroso, entre o desejo de voltar ao Brasil e o de permanecer vivendo aqui. Desde que me abri, de fato, para aceitar minha nova vida por aqui, tudo dentro de mim mudou. Estar no Brasil foi maravilhoso, especialmente em época de férias, Natal, Ano Novo, meu aniversário… É muito bom rever as pessoas, lugares, cheiros, gostos, emoções, sensações; mas também é doloroso ver que muitas coisas mudam, outras não mudam nada, pessoas mudam, atitudes também! Enfim, vivi de tudo um pouco nesse tempo que passei por lá.

Diferentemente da minha ida anterior, em 2010, não me senti tão a vontade quando estava por lá. Senti falta da Austrália, de verdade. Senti saudade da minha vida, dos meus amigos daqui. Pela primeira vez, me senti fora do meu “habitat natural”, estando nele… Pela primeira vez, me senti uma estranha várias vezes, em diversas situações. Pela primeira vez, me senti não fazendo parte de algo, de algum lugar ou situação. Inúmeras vezes me senti sozinha, esquisita, sobrando, até sonhando (literalmente) com Melbourne. Senti que estava meio fora “de lugar”… E que sensações estranhas foram aquelas! Me peguei diversas vezes surpreendida comigo mesma, com meus pensamentos e desejos. É incrível o quanto a gente muda. Graças a Deus por isso! Fico extasiada em observar a capacidade do ser humano em se auto-adaptar, se reinventar, reciclar, transformar-se! E eu me senti plena, VIVA, em constante mudança. Não que eu goste de grandes mudanças; longe de mim. Mas também não gosto de rotina, mais do mesmo, o de sempre…

A surpresa foi boa. O saldo foi positivo. Me senti confortável em minha própria pele. E sabe o quê? O melhor? EU GOSTEI! Em determinado momento, eu queria voltar. Pra Austrália. Bem, vou escrever de novo, porque isso ainda está soando estranho aos meus ouvidos emocionais: eu estava no Brasil e estava querendo VOLTAR! E então minha ficha caiu: finalmente, eu já sabia onde estava meu coração; já sabia onde é o lugar que meu interior reconhece agora como “LAR”. Senti paz. Como não sentia há alguns anos… E por fim, após quase 30 horas de vôo, quando botei meus pés em solo aussie novamente, aquela sensação incrível encheu meu peito de algo que nem sei descrever, e eu pude enfim dizer pra mim mesma: EU ESTOU EM CASA!!!

Dia de Aniversário Número 4

Pois é. Quem diria? “O tempo passa, o tempo voa.” O que não passa é a saudade, a lembrança, a vontade de estar perto de quem se ama. Pensei muito sobre o que eu poderia escrever para comemorar o quarto aniversário de Austrália, mas a conclusão foi óbvia: como sempre, decidi que deveria escrever com o coração, ser sincera. Falar a verdade. Pelo menos, a minha verdade. Depois de todo esse tempo vivendo longe, posso garantir apenas um ponto: o que o tempo NÃO CURA MESMO é a falta que algumas pessoas fazem no nosso dia-a dia. Se eu tenho aprendido algo, que seja relevante compartilhar, esse algo seria o seguinte: apenas amor de verdade vence a barreira do tempo, da distância e da ausência.

Depois de quatro (longos) anos, a realidade é uma só: a nova língua, antes amedrontadora, a gente domina. A cultura, antes tão diferente, a gente se acostuma; na real, a gente até se amolda. Lidar com as diferenças no ambiente de trabalho, a gente reaprende. Enfrentar os desafios diários de uma nova sociedade, a gente tira de letra. Construir novos círculos de amizade, conhecer gente nova a todo instante, a gente se adapta. Temperatura, clima, comida, diversidade cultural, diferença de fuso horário, de moeda, a gente se ajusta. Mas ficar longe de quem a gente AMA, nunca se torna simples ou superável, não importa quanto tempo passe…

Pode parecer “tema de novela”, de filme, tema de poesia, verso ou prosa, até letra de música. Pode soar piegas, cafona, jargão, o que for… O grande e único desafio de morar fora é conviver com a falta que as pessoas importantes fazem em nossa vida diária. Isso não passa. Não há cura para a ausência de gente querida. A gente apenas aprende a administrar. E aí é que está o “pulo do gato”: administrar os sentimentos. Nunca antes controle emocional e domínio próprio me pareceram tão fundamentais! Há momentos em que a gente tem que parar, pensar e dizer a si mesmo: respira fundo, racionaliza e continua andando. E não pira, por favor!

Vale ressaltar que a gente aprende, inclusive (ou seria PRINCIPALMENTE?), a questionar cada vez mais a veracidade dos nossos sentimentos e dos sentimentos dos outros sobre nós. A gente aprende a valorizar quem realmente faz diferença na nossa vida, porque percebe que viver sem algumas pessoas é muito difícil; já outras, nem tanto… Distância supervaloriza relacionamentos de verdade e expõe relações superficiais. E tem coisa mais legal do que conhecer melhor a si mesmo, conhecer com mais clareza o que a gente sente, conhecer melhor as pessoas com quem a gente se relaciona, ou as bases de relacionamentos que construímos ao longo de uma vida???

Só tenho o que comemorar nesse aniversário de 4 anos. Tenho apenas motivos para brindar e celebrar. Um brinde à vida, aos verdadeiros amigos e verdadeiros amores, às pessoas que permanecem, mesmo estando distantes. Um brinde àqueles que se esforçam em permanecer presentes, mesmo que a distância física nos impeça o abraço. Àqueles que nos fazem rir, chorar, calar, amar, gargalhar, pensar, mesmo que um oceano nos separe. Um brinde aos novos amigos, que partilham com a gente a mesma dor da ausência. Um brinde ao país maravilhoso que nos recebeu de braços abertos. Um brinde àqueles que têm o privilégio de viver entre dois países, duas culturas, dois povos, duas línguas e ainda conseguem encontrar espaço em seus corações para AMAR e RESPEITAR a ambos. CHEERS!!!

Nada Na Vida É Para Sempre…

Pode até parecer fatalista. E é. Mas a verdade é que as coisas sempre são passageiras; as situações mudam constantemente, num simples piscar de olhos. E eu precisei mudar de rotina, de país e de vida, para entender plenamente essa verdade. Confesso, sem falsa modéstia e nem sombra de hipocrisia, que estou muito orgulhosa de mim mesma. Por anos à fio, tive a sensação de que eu era extremamente madura, absolutamente sábia e experiente, por muitas coisas que tive que superar nessa vida, mas hoje vejo aquela petulância inerente às pessoas jovens, que acreditam SABER TUDO! Não consigo evitar uma boa risada ao pensar nisso…

A vida me surpreendeu. Esses quase 3 anos de vivência no exterior me amadureceram mais do que todos os outros vividos na minha então zona de conforto. Posso afirmar que tenho sido transformada. E gosto de quem estou me tornando. Gosto do que a vida tem feito em mim. Fato. Mas essa semana tenho experimentado algo muito novo, que tem trazido um grande alento ao meu coração… Mais uma vez, grandes amigos estão indo embora. Pessoas com as quais a gente se envolveu, compartilhou, amou, chorou, riu, dividiu, somou, e agora somos obrigados à subtrair! Já falei aqui mais de uma vez, que uma das piores coisas para mim é essa eterna sensação de que, em breve, vamos nos despedir de mais alguém. Nem todo mundo veio para ficar. A maioria tem um tempo determinado, com planos de volta ao Brasil ou seu país de origem.

Quando recebi a notícia da data de embarque deles (fui a primeiríssima a saber), meu coração acelerou. Imediatamente entrei no meu processo de estimação de reclamação mental, de “coitadismo” interior, pensando que eu não precisava passar por isso, DE NOVO! Há 3 anos vivo essa coisa de me despedir, constantemente… E olha, se eu tivesse uma caixa de bombons por perto, teria me afundado nela, iniciando (com consciência!) um processo depressivo. Mas fiz o que eu tinha ao meu alcance, até porque estou de dieta: falei com Deus! E no meu processo de “terapia com o Todo-Poderoso”, comecei a enxergar algo diferente brotando em mim. Notei, lá fundo, um certo desejo de não me entregar, de não me deixar abater, mas de procurar responder à esse momento com amadurecimento, deixando a “menininha mimada” dentro de mim totalmente desconcertada!

Comecei a pensar no quanto eles estão felizes por voltar. E me alegrei junto. Comecei a pensar o quanto foi bom todo esse tempo que caminhamos juntos. E agradeci pela oportunidade de conhecê-los. Comecei a pensar em quantas vezes ainda terei que me despedir de pessoas que amo. E decidi aproveitar com alegria cada segundo que me for dado em companhia deles. Então eu entendi. Realmente estou mudando. Estou evoluindo. Como pessoa. O amadurecimento tão sonhado está batendo à minha porta. E a resposta a ele é de minha inteira responsabilidade. A escolha de ficar sofrendo e chorando, me lamentando e lambendo as minhas feridas, ou me sentindo uma coitada, é MINHA! Que libertador isso! E me levantei, decidida a ser autora da minha própria história. Decidida à usar tudo o que a vida tem me dado para construir a pessoa que quero efetivamente me tornar.

Aos nossos amigos que estão indo, só tenho à agradecer. Por absolutamente TUDO. Mas principalmente, porque sei que esse tempo juntos foi apenas o começo de uma história de amizade que vai durar, independente de distância. E porque, mesmo sem saber, eles ainda estão me ajudando a me conhecer mais, me respeitar mais e me ver, definitivamente, como a mulher forte que eu realmente estou me tornando… Obrigada, meus queridos! Eu amo vocês três. Mais do que nunca!

Nossa "família" aussie!

Doença Crônica Julina!

Ano passado, nessa mesma época, eu estava no Brasil. Sozinha. Remediando a saudade da família e dos amigos, da minha cidade do coração (não sou jundiaiense de berço, mas amo como se fosse!), de algumas comidas prediletas e de alguns momentos únicos para mim. Meu marido e meus filhos ficaram aqui na Austrália. Literalmente, uma viagem paliativa. Como um Band-Aid emocional, em uma ferida gigante. A saudade dos meus filhos não me permitia curtir a cura da saudade de quem ficou no Brasil… Brincadeira bem SEM graça!

Mas os momentos que passei lá, com algumas pessoas absolutamente INSUBSTITUÍVEIS em minha vida, tornaram minha estadia aqui muito mais produtiva. Quando voltei, a Austrália parecia mais bonita, mais agradável, mais atrativa e totalmente capaz de se tornar “meu lar”! A sensação que eu tive quando cheguei, foi a de que tomamos a decisão certa, de que morar aqui é TUDO DE BOM, que a qualidade de vida vale a distância… Munida de minha energia recarregada e relembrando algumas situações desagradáveis vividas lá, comecei um novo ciclo cheia de esperança, acreditando que, enfim, ia demorar para sentir falta de tudo que ficou para trás! Que engano! Apenas um ano depois, cá estou eu com uma saudade quase insuportável dentro do peito, disposta à viver tudo outra vez, apenas para estar perto de algumas pessoas que deixei lá…

Claro que alguns fatos desencadearam a minha “homesick” atual. Falei ao telefone com minha mãe por um tempão no último domingo, com meu irmão que estava passando uma semana na casa dela, e relembramos coisas boas e bons momentos compartilhados. Hoje minha irmã deixou uma mensagem no meu Facebook, também relembrando minha ida no ano anterior. E por fim, o golpe final: revi as fotos que tiramos lá e relembrei cada momento vivido! Pronto. Agora é fato. Tenho uma nova doença crônica: a síndrome da saudade da viagem das férias de Julho! Hahahahahah!

Conversando com uma amiga brasileira no último fim de semana, concluímos que a verdade é UMA SÓ: saudade é uma doença crônica. Vai e volta. Melhora e piora. Some e reaparece. Basta um pequeno detalhe, uma lembrança, um cheiro, uma música, uma foto, um pensamento, e lá vem ela forte e insuperável, arrasando com as certezas que a gente “ACHAVA” que tinha. E a conclusão mais profunda de nossa conversa: o pior problema é ter saído do Brasil para morar fora. Depois disso, nosso coração ficará eterna e dolorosamente dividido. Querendo estar lá e aqui ao mesmo tempo. Amando tudo que a nova vida aussie nos proporciona, mas desejando ardentemente dividir e compartilhar tudo isso com pessoas que a gente ama demais para deixar partir de nossas vidas…